CRUZ - TEOLOGIA PAULINA

 

Cruz

CRUZ, TEOLOGIA DA
“Pregamos um Messias crucificado” (ICor 1,23).
A centralidade da cruz na proclamação paulina 
do evangelho está caracterizada nesta frase
imensamente sugestiva da correspondência coríntia.
Desde o início do século XVI, a frase
“teologia da cruz” passou a ser usada com referência
a uma teologia que se concentra na crucifixão*.
As origens da frase remontam à Controvérsia
de Heidelberg (1518), quando Martinho
Lutero comparou uma “teologia da glória” (que
marginalizava a cruz de Cristo) com uma “teologia
da cruz” que se concentrava em Deus na
medida em que ele se revelou no Cristo* crucificado
e por meio dele. Para Lutero, a cruz não
era apenas a base da salvação humana — era
a base da auto-revelação divina, na qual se encontrava
“a verdadeira teologia e o conhecimento
de Deus”.
Essa ênfase na centralidade da cruz continuou
a ser um aspecto constante da teologia cristã,
embora esse fato se reflita mais plenamente
em hinos que em obras de teologia. Nos últimos
anos, a teologia da cruz encontrou forte expressão
principalmente nos escritos de J. Moltmann
e E. Jüngel, apesar das significativas contribuições
de D. J. Hall e outros. 
 
Que papel a cruz
desempenhou na concepção paulina da teologia
e da vida cristãs?
1. Definição de teologia da cruz
2. E. Käsemann a respeito de Paulo e da
teologia da cruz
3. A cruz e os atributos de Deus
4. A cruz e a ressurreição: “agora” e
“ainda não”
5. A cruz e a redenção humana
6. A cruz e a vida cristã
 
1. Definição de teologia da cruz
O que é “teologia da cruz”? Em certo sentido,
quase toda teologia cristã pode reivindicar esse
título pelo fato de fazer ao menos alguma referência
à crucifixão de Jesus Cristo. Mesmo a
imperfeita teologia coríntia, que Paulo combatia,
parece ter incorporado a cruz a suas reflexões
(ver Coríntios). Entretanto, em seu sentido
mais estrito, uma “teologia da cruz” definese
nos termos a seguir (Luz):
1.1. Base da salvação. 
Uma teologia da cruz trata a cruz como base exclusiva da salvação.
Considera-se que a cruz colocou todos os
outros acontecimentos da história da salvação
(como a ressurreição* de Cristo ou sua volta na
glória*) em seus contextos apropriados. Assim,
no caso da teologia coríntia, tão fortemente
criticada por Paulo, a ressurreição parece estar
desligada da cruz e ser tratada como algo que
relativiza a crucifixão. A teologia da cruz nega
essa relativização.
1.2. Ponto de partida da teologia cristã. 
Uma teologia da cruz declara que a cruz é o ponto de
partida da teologia autenticamente cristã. A
cruz não é um aspecto individual isolado de
teologia, mas é, ela mesma, a base dessa teologia.
Longe de ser um capítulo isolado em um
livro didático de teologia, a cruz domina e permeia
toda teologia cristã verdadeira, envolvendo-
se em toda a sua estrutura.
1.3. Centro do pensamento cristão. 
Uma teologia da cruz trata a cruz como centro de
todo pensamento cristão, visto que de seu centro
se difundem declarações cristãs quanto à ética,
à antropologia, à vida cristã etc. As doutrinas da
revelação e da salvação*, tão facilmente separadas
uma da outra, convergem na cruz.
Nesse forte sentido da frase, Paulo e Marcos
(e talvez 1 Pedro) surgem como representantes
principais de uma teologia da cruz no corpus
neotestamentário.
 
2. E. Käsemann a respeito de Paulo e da
teologia da cruz
A influência de E. Käsemann, em especial seu
ensaio “The Saving Significance of the Death
of Jesus in Paul”, domina os estudos modernos
da centralidade da cruz no pensamento paulino.
Kãsemann defende com veemência a necessidade
de reapropriar-se dos grandes discernimentos
da Reforma a respeito da teologia paulina;
mais exatamente, os de Lutero (ver Paulo e seus
intérpretes). Firmemente posicionado na tradição
luterana de interpretação paulina, Kãsemann
declara que qualquer outra abordagem da teologia
paulina abrange, na melhor das hipóteses,
apenas alguns de seus muitos aspectos; é a abordagem
de Lutero que compreende a teologia
paulina em sua totalidade (ver Centro). Assim,
quais são os aspectos básicos da teologia paulina
da cruz, segundo Käsemann?
Em sua análise dos textos paulinos, Käsemann
traça uma distinção exata entre textos que
Paulo herda e que refletem a tradição litúrgica
e doxológica (ver Elementos litúrgicos) de uma
tradição* pré-paulina e textos de que é possível
afirmar serem originários diretamente de Paulo.
Estes últimos, afirma Kasemann, são mais autenticamente
paulinos. Para começar vamos examinar
os que são considerados originários de
uma tradição mais primitiva.
Segundo Kasemann, as passagens que afirmam
a importância salvífica da morte* de Cristo
derivam, em grande parte, dessa tradição mais
primitiva. Entretanto, ele percebe a existência de
um processo de reinterpretação, pelo qual Paulo
introduz nesse material tradicional novos elementos
radicais. Em parte, essa reinterpretação
consiste em redirecionar a atenção do “ainda
não” da ressurreição para o “aqui e agora” da
crucifixão — elemento muito importante de
sua controvérsia com os entusiastas coríntios.
Além disso, elementos judeu-cristãos (em Rm
3,24-26
24sendo justificados gratuitamente, por sua graça, mediante a redenção que há em Cristo Jesus, 25a quem Deus propôs, no seu sangue, como propiciação, mediante a fé, para manifestar a sua justiça, por ter Deus, na sua tolerância, deixado impunes os pecados anteriormente cometidos; 26tendo em vista a manifestação da sua justiça no tempo presente, para ele mesmo ser justo e o justificador daquele que tem fé em Jesus.
) são adotados, mas passam por uma
revisão para adquirir um sentido mais rico (ver
Kasemann, 1980, 91-101). Porém essa reinterpretação
deve ser considerada principalmente
na ênfase que Paulo dá à justificação* dos ímpios.
A cruz demonstra a completa seriedade do
pecado*, declara a impotência da humanidade
caída para alcançar a salvação e expõe erros
humanos de hipocrisia.
As cartas paulinas incluem alguns casos de
tradição pré-paulina que Paulo interpretou ou
revisou. Dois desses casos têm importância especial.
Romanos 3,24-26 ilustra a observação
geral de que falta à tradição pré-paulina a ênfase
radical na cruz aparentemente tão característica
de Paulo. E, o que é mais significativo, Paulo parece
acrescentar a Filipenses 2,6-11 
5Tende em vós o mesmo sentimento que houve também em Cristo Jesus, 6pois ele, subsistindo em forma de Deus, não julgou como usurpação o ser igual a Deus; 7antes, a si mesmo se esvaziou, assumindo a forma de servo, tornando-se em semelhança de homens; e, reconhecido em figura humana, 8a si mesmo se humilhou, tornando-se obediente até à morte e morte de cruz. 9Pelo que também Deus o exaltou sobremaneira e lhe deu o nome que está acima de todo nome, 10para que ao nome de Jesus se dobre todo joelho, nos céus, na terra e debaixo da terra, 11e toda língua confesse que Jesus Cristo é Senhor, para glória de Deus Pai.
uma ênfase na cruz geralmente considerada tradição prépaulina.
A frase “e morte numa cruz” desintegra
a escansão do texto, o que sugere ter sido acrescentada
por Paulo. A modificação significativa
deste texto, que agora inclui uma referência explícita
e importante à cruz, esclarece a preocupação
de Paulo em concentrar sua teologia no
Cristo crucificado.
E aquelas passagens que devem ser consideradas
originárias diretas de Paulo, sua criação
pessoal, não herança da tradição pré-paulina?
Nelas se encontra, em plenitude e nitidez, a
mensagem do escândalo da cruz com todas as
suas implicações teológicas. Talvez a mais significativa
dessas passagens seja 1 Coríntios 1,18-31.
 
18Certamente, a palavra da cruz é loucura para os que se perdem, mas para nós, que somos salvos, poder de Deus. 19Pois está escrito:
Destruirei a sabedoria dos sábios e aniquilarei a inteligência dos instruídos. 20Onde está o sábio? Onde, o escriba? Onde, o inquiridor deste século? Porventura, não tornou Deus louca a sabedoria do mundo? 21Visto como, na sabedoria de Deus, o mundo não o conheceu por sua própria sabedoria, aprouve a Deus salvar os que creem pela loucura da pregação. 22Porque tanto os judeus pedem sinais, como os gregos buscam sabedoria; 23mas nós pregamos a Cristo crucificado, escândalo para os judeus, loucura para os gentios; 24mas para os que foram chamados, tanto judeus como gregos, pregamos a Cristo, poder de Deus e sabedoria de Deus. 25Porque a loucura de Deus é mais sábia do que os homens; e a fraqueza de Deus é mais forte do que os homens.
 
26Irmãos, reparai, pois, na vossa vocação; visto que não foram chamados muitos sábios segundo a carne, nem muitos poderosos, nem muitos de nobre nascimento; 27pelo contrário, Deus escolheu as coisas loucas do mundo para envergonhar os sábios e escolheu as coisas fracas do mundo para envergonhar as fortes; 28e Deus escolheu as coisas humildes do mundo, e as desprezadas, e aquelas que não são, para reduzir a nada as que são; 29a fim de que ninguém se vanglorie na presença de Deus.
 
30Mas vós sois dele, em Cristo Jesus, o qual se nos tornou, da parte de Deus, sabedoria, e justiça, e santificação, e redenção, 31para que, como está escrito:
Aquele que se gloria, glorie-se no Senhor.
 
Aqui encontramos a ênfase caracteristicamente
paulina no fato de Deus querer justificar
os ímpios pela crucifixão escandalosa de Jesus
como criminoso amaldiçoado publicamente por
Deus. Kasemann chama a atenção em especial
para dois aspectos distintos desta teologia: seu
caráter polêmico e sua predisposição para a
rejeição pelo mundo*.
A teologia paulina da cruz é polêmica, não
por ser dirigida contra falsos entendimentos da
natureza de Deus* usuais fora da Igreja, mas
porque se opõe a interpretações errôneas do
evangelho dentro da própria Igreja* — tais como
a devoção legalista de círculos cristãos judaizantes
(ver Judaizantes) ou as perspectivas
falsas a respeito da ressurreição comuns em Corinto.
A teologia paulina da cruz “era sempre
um ataque crítico à interpretação tradicional dominante
da mensagem cristã, e não foi por acaso
que caracterizou os inícios protestantes” (Kãsemann,
35). 
E essa teologia se volta para a rejeição
pelo mundo. Kasemann ressalta que o ministério
pessoal de Paulo pode ser considerado
uma apresentação autobiográfica do impacto da
cruz porque evoca angústia, sofrimento, rejeição
e perseguição (ver Angústias, tribulações, provações).
Onde quer que a Igreja leve a sério a
cruz de Cristo, ela espera encontrar hostilidade.
Quase no fim de seu ensaio, Kasemann apresenta
uma importante discussão da relação entre
a teologia da cruz e a pregação*, aparentemente
dirigida contra os que enfatizam a historicidade
e a objetividade da crucifixão. Não podemos
deixar que a fé se torne dependente de meras
lembranças históricas de um acontecimento
passado (e aqui, com certeza, percebemos ecos
da crítica de M. Kãhler a abordagens puramente
históricas à cristologia*). 
A morte de Cristo é significativa não apenas como acontecimento
histórico, mas pela proclamação da Palavra (Rm
10,14
) e a subsequente evocação da fé*.
A abordagem de Kasemann à teologia paulina
da cruz é brilhante e original, e ele continua
a ser um parceiro muito importante em qualquer
discussão da teologia paulina da cruz. Notamos
alguns pontos óbvios de critica do ensaio que 
se concentram em sua distinção entre os componentes
pré-paulinos e paulinos do corpus.
Primeiro, por que devemos presumir que o
material pré-paulino é, de alguma forma, menos
importante que as passagens paulinas? O
próprio fato de Paulo recorrer a uma tradição
mais primitiva pode muito bem indicar que ele
pretendia que ela fosse tratada com grande seriedade
e que essas passagens se destinavam a
ser investidas de peso interpretativo especial.
Exemplo óbvio é 1 Coríntios 11,23-25, onde
Paulo deseja claramente que sua citação de uma
tradição mais primitiva possua autoridade* suficiente
para confirmar seu argumento (ver
também ICor 15,1-4).
Segundo, como Kãsemann pode ter tanta
certeza de que Paulo modificou radicalmente
o material mais primitivo? Do ponto de vista
metodológico, essa pergunta se relaciona com
a pergunta de como é possível traçar uma distinção
entre material tradicional e redacional,
o que não é necessariamente tão simples como
Kãsemann quer que acreditemos. Até onde percebemos,
Paulo nem sempre modifica o material
mais primitivo; sempre deve haver um grau
de dúvida quanto à natureza, à extensão e à importância
da reelaboração paulina da tradição
mais primitiva.
Contudo, podemos dizer que o ensaio de
Kãsemann, completado por uma série notável
de escritos posteriores, estimulou um novo interesse
pela teologia paulina da cruz, em especial
nos estudos de língua alemã e, cada vez mais, nos
escritos norte-americanos (e.g., Beker, Cousar).
O restante deste ensaio tenta fazer um levantamento
geral dessa teologia, à luz desse trabalho.
 
3. A cruz e os atributos de Deus
Percebemos melhor o impacto da teologia paulina
da cruz nos atributos de Deus a partir da análise
de 1 Coríntios 1,18-2,5. 
1Co 2.1-5 1Eu, irmãos, quando fui ter convosco, anunciando-vos o testemunho de Deus, não o fiz com ostentação de linguagem ou de sabedoria. 2Porque decidi nada saber entre vós, senão a Jesus Cristo e este crucificado. 3E foi em fraqueza, temor e grande tremor que eu estive entre vós. 4A minha palavra e a minha pregação não consistiram em linguagem persuasiva de sabedoria, mas em demonstração do Espírito e de poder, 5para que a vossa fé não se apoiasse em sabedoria humana, e sim no poder de Deus.
Essa passagem parece ser dirigida a uma comunidade que perdeu
de vista a centralidade da cruz por causa da
preocupação com uma idéia quase gnóstica (ver
Gnose, gnosticismo) da ressurreição* ou da
existência celeste neste mundo. De modo significativo,
parece que Paulo faz a exigência de
que todo debate a respeito dos atributos divinos
se baseie no Cristo crucificado, não em idéias
humanas preconcebidas daquilo que conta como
“sabedoria”. Há fortes paralelos entre a teologia
da cruz e a doutrina de justificação*; assim como
tentou discernir Deus pela sabedoria mundana
(1 Cor 1,21), o mundo também procurou alcançar
a justificação pelas obras da lei (Rm 3,21-26;
ver Obras da lei). Isso não é tanto uma sugestão
da ligeira deficiência da sabedoria humana quanto
uma afirmação da existência de falha tão grave
nas noções humanas naturais de sabedoria que a
humanidade inverte totalmente a relação entre
“sabedoria” e “loucura”. Cristo se toma para nós
“sabedoria que vem de Deus” (ICor 1,30) —
idéia que talvez seja mais bem entendida em
termos de Cristo ser o paradigma da divina
sabedoria. O Cristo crucificado é a estrutura interpretativa
para entender o sentido de Deus.
A passagem pode ser considerada uma forte
demonstração da liberdade de Deus. Deus não
está preso às limitações das categorias humanas.
Os conceitos humanos de sabedoria mostramse
espúrios, coisas que os homens inventaram
em vez de coisas que foram reveladas. Aqui há
paralelos com o argumento relacionado desenvolvido
em Romanos 1,19-25, onde Paulo afirma
que os pecadores têm propensão natural a
confundir a criação com o Criador e substituem
por entidades criadas o fato de Deus tê-los criado.
O argumento paulino concentra-se claramente
no fato de ter sido permitido à humanidade
definir a estrutura de referência para entender
Deus em vez de deixar que o próprio Deus estabelecesse
essa estrutura. 1 Coríntios 1,30 subentende
que idéias humanas de sabedoria*, justiça*,
santificação (ver Santidade, santificação) e
redenção* não são apenas relativizadas, mas a
crucifixão de Jesus Cristo mostra que são espúrias.
Não só os caminhos de Deus não são os
nossos; para começar, nossos modos de pensar
nos impedem de discernir esses caminhos.
Entenderemos esse ponto se examinarmos
a noção da “justiça de Deus” em relação à justificação
dos ímpios (e.g., Rm 3,21-26). Ao lado
das alusões à fidelidade de Deus à aliança está
a noção de que Deus é, de algum modo, definido
em relação ao evento da justificação. Deus é
alguém que — apesar de toda a ofensa feita à
noção humana de justiça —justifica os ímpios.
Os fiéis devem confiar naquele “que justifica
o ímpio” (Rm 4,5), isto é, Deus. Assim como
Deus justifica o ímpio (e, desse modo, simultaneamente
ofende e contradiz as idéias humanas
de direito e justiça), também Deus escolhe os
que são fracos e tolos aos olhos do mundo (e,
desse modo, simultaneamente ofende e contradiz
as idéias humanas de sabedoria).
Desse modo, a cruz — mais precisamente o
Cristo crucificado — atua como o fundamento
de modos autenticamente cristãos de pensar em
Deus e como um juiz dos modos de pensar em Deus
que os seres humanos assimilam sem críticas do
mundo que os rodeia e inconscientemente incorporam
às reflexões teológicas. Se Kãsemann está
certo e a teologia paulina da cruz é, na verdade,
de natureza polêmica, voltada para teologias
inadequadas dentro da própria Igreja, então a
teologia deve submeter-se a esse critério.
 
4. A cruz e a ressurreição: “agora” e
“ainda não”
Como a cruz e a ressurreição se relacionam?
Käsemann protestou com veemência contra os
que consideravam a cruz e a ressurreição “dois
elos de uma corrente” — a corrente em questão
sendo a seqüência ordenada de acontecimentos
que leva da preexistência à volta final de Cristo
que, no caminho, abrangia pontos de referência
como seu nascimento (ou encarnação) e sua
ascensão. Como mencionamos acima, a teologia
da cruz insiste na prioridade da cruz sobre todos
os outros acontecimentos da história da salvação.
Desse modo, Kãsemann declara que a cruz
e a ressurreição têm de ser relacionadas como
“enigma e interpretação”.
Isso contrasta com a tradição pré-paulina
(e.g., em ICor 15,3-4), na qual a cruz e a ressurreição
são tratadas como acontecimentos em seqüência.
Embora seja possível afirmar que a
cruz é a pressuposição da ressurreição (porque
sem sua morte Cristo não ressuscitaria), esse
discernimento não tem, necessariamente, importância
teológica. Não que a cruz seja um capítulo
da história da ressurreição no qual a ressurreição
excede a cruz em importância. Mais exatamente,
a ressurreição dá sentido à cruz, sendo
a cruz o verdadeiro centro de gravidade. Quase
podemos dizer que a ressurreição é um capítulo
em um livro a respeito da teologia da cruz. Antes
de Paulo, a cruz de Jesus moldou a pergunta
que foi respondida pela mensagem da ressurreição.
Decididamente, o apóstolo reverteu esse
modo de ver as coisas. Em sua controvérsia com
os entusiastas, foi precisamente a interpretação
da ressurreição que se transformou em problema,
problema só resolvido à luz da cruz. A situação
em Corinto esclarece bem esse ponto.
A interpretação mais razoável da situação
coríntia resume-se da maneira a seguir. Uma ala
da Igreja manifestou idéias semelhantes às associadas
com Himeneu e Fileto (2Tm 2,17-18)
— que a ressurreição já se efetuou. Essa idéia
de uma “ressurreição realizada” é responsável
por muitos dos temas característicos ligados à
situação abordada em 1 Coríntios (ver Coríntios).
A ênfase no “ainda não” volta-se para os
que acreditavam que j á tinham alcançado a realização,
que já estavam dotados de vozes espirituais
e celestes e que já falavam nas línguas*
dos anjos*. A ênfase paulina na cruz parece destinada
a ressaltar que a cruz não é ultrapassada
no caminho para a ressurreição. Antes de compartilhar
a vida da ressurreição e toda a sua plenitude,
os fiéis precisam primeiro passar pela
sombra da cruz, que continua a cair em toda a
extensão da existência cristã (ver Escatologia).
Ponto semelhante vem à tona na discussão
paulina do batismo, em especial como ela se
encontra em Romanos (Rm 6,1 -11
1Que diremos, pois? Permaneceremos no pecado, para que seja a graça mais abundante? 2De modo nenhum! Como viveremos ainda no pecado, nós os que para ele morremos? 3Ou, porventura, ignorais que todos nós que fomos batizados em Cristo Jesus fomos batizados na sua morte? 4Fomos, pois, sepultados com ele na morte pelo batismo; para que, como Cristo foi ressuscitado dentre os mortos pela glória do Pai, assim também andemos nós em novidade de vida. 5Porque, se fomos unidos com ele na semelhança da sua morte, certamente, o seremos também na semelhança da sua ressurreição, 6sabendo isto: que foi crucificado com ele o nosso velho homem, para que o corpo do pecado seja destruído, e não sirvamos o pecado como escravos; 7porquanto quem morreu está justificado do pecado. 8Ora, se já morremos com Cristo, cremos que também com ele viveremos, 9sabedores de que, havendo Cristo ressuscitado dentre os mortos, já não morre; a morte já não tem domínio sobre ele. 10Pois, quanto a ter morrido, de uma vez para sempre morreu para o pecado; mas, quanto a viver, vive para Deus. 11Assim também vós considerai-vos mortos para o pecado, mas vivos para Deus, em Cristo Jesus.). 
Uma reserva escatológica consistente é mantida aqui, como
na correspondência coríntia mais primitiva.
Pelo batismo, os fiéis se tomam participantes
da morte de Cristo na cruz — e os fiéis serão
participantes da sua ressurreição. Os fiéis foram
unidos a ele em sua morte; serão unidos a
ele em sua ressurreição (Rm 6,5). Os fiéis morreram
com Cristo, viverão com ele em sua ressurreição
(Rm 6,8-9; ver Morrer e ressuscitar
com Cristo). Assim, o batismo não leva diretamente
à participação na ressurreição: a participação
na morte de Cristo é o “aqui e agora”
do qual a participação em sua ressurreição é o
“ainda não”. A ênfase paulina na participação
presente dos fiéis na morte de Cristo ajusta
firmemente a vida de fé a este mundo e apresenta
o céu como realidade futura, presente na
promessa, contudo não de fato: non in re sede
in spe (Lutero).
 
5. A cruz e a redenção humana
Ao passarmos a lidar com a teologia paulina da
cruz como ela se relaciona com a redenção humana,
descobrimos que Paulo apresenta e defende
idéias que parecem remontar à tradição prépaulina.
A idéia de que Cristo “morreu por (hyper)
nossos pecados” está profundamente arraigada
no corpus paulino (e.g., Rm 5,6.8; 14,15;
Gl1,4; 2,20). O mais significativo é a frase ser
proveniente da tradição pré-paulina (ICor 15,3),
de modo a não deixar dúvida quanto a sua considerável
autoridade, nem para Paulo, nem para
seus leitores. O acontecimento histórico da crucifixão
é, assim, revestido de um importante elemento
interpretativo, no qual a história se toma
história da salvação. Mas como deve esse acontecimento
da salvação ser analisado mais a fundo?
A explicação paulina da maneira na qual a
morte* de Cristo na cruz é salvífica é complexa
e, com freqüência, mistura, em um espaço muito
curto, uma variedade de imagens profundamente
sugestivas e ricas. Em 2 Coríntios 5,14-6,2 há
um notável conjunto de imagens entrelaçadas,
para formar um quadro complexo da maneira
pela qual podemos dizer que a cruz nos redime.
Em Romanos 3,24-26, três imagens significativas
(analisadas abaixo) estão integradas para dar
uma abrangente visão geral do evento da redenção.
Contudo, é difícil reduzir as declarações
paulinas aqui ou alhures às teorias puras tão do
gosto de alguns teólogos. Por exemplo, o pensamento
paulino em Romanos 6,1-11 é claramente
participativo; o fiel participa da morte de Cristo
agora e, por fim, participará de sua ressurreição.
Porém, em 2 Coríntios 5,21 é usada uma linguagem
indireta: há uma troca de pecado e justiça
entre o fiel e Cristo (Hooker).
O debate se concentra em algumas imagens
importantes usadas no corpus paulino para descrever
os “benefícios de Cristo” (Melanchton).
Podemos mencionar três que têm importância
especial.
1. Tradicionalmente, a palavra grega hilastèrion
é traduzida por “expiação” ou “propiciação”,
embora o termo “propiciatório” (cf. Lv
16) ganhe cada vez mais a preferência dos exegetas
(ver Expiação, propiciação, propiciatório).
Esse termo técnico ocorre só uma vez no
corpus paulino, o que toma sua interpretação
tão significativa quanto difícil, devido a sua função
essencial em Romanos 3,24-26 [ver nota y
na TEB], A tradução “propiciação” transmite
associações de “um ato dirigido para a satisfação
da cólera divina” (Morris). O forte elo entre pecado
e a cólera* de Deus (e.g., Rm 1,18; 3,5)
toma essa uma forte possibilidade. Traduzir o
termo como “expiação” subentende que a morte
de Cristo “repara o pecado” e sugere que a morte
de Cristo tem por objetivo emendar o pecado
em vez de apaziguar Deus. “A cólera de Deus no
caso da morte de Jesus é mais preventiva que punitiva”
(Dunn). No fim, esse debate tem de continuar
aberto. Está claramente entendido que a morte
de Cristo chega à causa fundamental do pecado
— não importa como isso seja entendido.
2. O ato de Deus que justifica os ímpios.
(Evito deliberadamente o substantivo “justificação”
para permanecer fiel ao uso paulino quase
invariável do verbo. Ver Justificação; Justiça.)
Essa idéia expressa algumas idéias paulinas
centrais: a ação divina poderosa, cósmica e universal
para efetuar uma mudança na situação
entre a humanidade pecaminosa e Deus pela
qual Deus absolve os fiéis e os coloca em uma
relação correta e fiel com ele. A morte de Cristo
é considerada simultaneamente defesa do caráter
de Deus e perdão genuíno dos pecados humanos
(Rm 3,26).
3. A idéia de “libertação”* (Rm 3,24) tem
fortes ligações com o mundo de um mercado
de escravos ou uma prisão. O tema dominante
é o de libertação para deixar de estar “sob o
império do pecado” (Rm 3,9). Aqui o pecado
é entendido como poder ou força que exerce
autoridade e domínio sobre a humanidade pecadora.
A morte de Cristo destrói essa força
maligna e permite que os seres humanos alcancem
a gloriosa liberdade dos filhos de Deus
(ver Adoção, filiação).
Entretanto, devemos ressaltar que Paulo
não se preocupa em formar uma teologia sistemática
de redenção como a que se encontra em
muitos teólogos escolásticos. E a realidade, não
uma teoria específica do poder* de Deus para
libertar do pecado por intermédio da morte de
Cristo, que domina os horizontes paulinos. As
imagens usadas para esse fim são elucidativas,
e fazemos bem em evitar a seletividade e a
prioridade que inevitavelmente acompanham
a sistematização do evento da redenção. A teologia
da cruz tem muito a nos dizer aqui, fazendo-
nos lembrar de que é a cruz, o Cristo crucificado,
que está no centro do evangelho* cristão,
não uma teoria.
6. A cruz e a vida cristã
Como a cruz afeta a vida cristã? Talvez seja
aqui que as plenas implicações de uma teologia
da cruz fiquem claras. Com efeito, a teologia se
toma espiritualidade, não espiritualidade no
vago sentido humanista de um meio de elevar a
religiosidade humana, mas no sentido apropriado
de moldar quem está no caminho para ser
espiritual. A cruz forma a vida cristã, fato que
Paulo desenvolve em uma série convincente de
passagens autobiográficas nas quais ele relata a
maneira como foi moldado pela cruz e harmonizou-
se com o padrão do Cristo crucificado. Em
uma série importante de passagens, Paulo indica
a maneira pela qual é possível esperar que a
cruz afete a vida dos fiéis. Encontramos os temas
nas passagens a seguir.
6.1.2 Coríntios 4,7-15
7Temos, porém, este tesouro em vasos de barro, para que a excelência do poder seja de Deus e não de nós. 8Em tudo somos atribulados, porém não angustiados; perplexos, porém não desanimados; 9perseguidos, porém não desamparados; abatidos, porém não destruídos; 10levando sempre no corpo o morrer de Jesus, para que também a sua vida se manifeste em nosso corpo. 11Porque nós, que vivemos, somos sempre entregues à morte por causa de Jesus, para que também a vida de Jesus se manifeste em nossa carne mortal. 12De modo que, em nós, opera a morte, mas, em vós, a vida. 13Tendo, porém, o mesmo espírito da fé, como está escrito:
Eu cri; por isso, é que falei.
Também nós cremos; por isso, também falamos, 14sabendo que aquele que ressuscitou o Senhor Jesus também nos ressuscitará com Jesus e nos apresentará convosco. 15Porque todas as coisas existem por amor de vós, para que a graça, multiplicando-se, torne abundantes as ações de graças por meio de muitos, para glória de Deus.
Nesta lista de provações*
que tem significativa relação com a “literatura
de tribulações” do período clássico, Paulo
indica a forma como a cruz de Cristo infundese
em sua existência. Ser alguém que crê é trazer
as marcas de tribulações, conflitos e rejeições. A
idéia principal é expressa na sentença imensamente
evocativa: “sem cessar trazemos em nosso
corpo a agonia de Jesus” (2Cor 4,10). Para Paulo,
Cristo e sua cruz são a causa e o paradigma do
sofrimento do fiel. Há uma forte sensação de
que o fiel participa da vida — e daí dos sofrimentos
— de Cristo, idéia que talvez Romanos
8,17 expresse mais plenamente (cf. Cl 1,24).
6.2. Gálatas 6,14. 
“Eu, por mim, nunca vou
querer outro título de glória que a cruz de nosso
Senhor Jesus Cristo; por ela o mundo está crucificado
para mim, como eu para o mundo.” 
Essa passagem significativa trata da crítica dos que,
por razões mundanas, desejam forçar os cristãos
a adotar estilos de vida estranhos ao evangelho.
O mundo é considerado um poder que invade a
vida dos fiéis onde não tem nenhuma autoridade
para fazê-lo. A passagem subentende uma relação
orgânica entre a crucifixão de Cristo, a de Paulo
e a do mundo. Por causa da cruz, Paulo morreu
para o mundo e o mundo morreu para ele. “Os
que pertencem ao Cristo crucificaram a carne”
(Gl 5,24). O poder que o mundo outrora exercia
sobre ele foi rompido. Paulo agora participa de
uma nova criação* que existe graças à crucifixão,
na qual a autoridade e o domínio do mundo*
foram destruídos — não, mais que isso: o
mundo foi crucificado.
6.3. Filipenses 3,8-12. 
Sim, deveras considero tudo como perda, por causa da sublimidade do conhecimento de Cristo Jesus, meu Senhor; por amor do qual perdi todas as coisas e as considero como refugo, para ganhar a Cristo 9e ser achado nele, não tendo justiça própria, que procede de lei, senão a que é mediante a fé em Cristo, a justiça que procede de Deus, baseada na fé; 10para o conhecer, e o poder da sua ressurreição, e a comunhão dos seus sofrimentos, conformando-me com ele na sua morte; 11para, de algum modo, alcançar a ressurreição dentre os mortos.
12Não que eu o tenha já recebido ou tenha já obtido a perfeição; mas prossigo para conquistar aquilo para o que também fui conquistado por Cristo Jesus. 
 
Esta veemente passagem
se baseia na ideia de participar da ressurreição*
e dos sofrimentos* de Cristo por causa da
relação dos fiéis com ele. Paulo expressa o desejo
ardente “de conhecê-lo a ele [Cristo] e ao
poder da sua ressurreição e à comunhão com
seus sofrimentos, de tomar-se semelhante a ele
em sua morte” (Fl 3,10). Porque Cristo já os alcançou
(Fl 3,12), os fiéis podem esperar participar
de tudo que ele é e tem— inclusive a companhia
de seus sofrimentos, tomando-se como ele
em sua morte e, finalmente (note o elemento
de “ainda não”), participar da ressurreição. Foram
passagens como essa que fizeram Lutero
escrever que “o Christianus precisa ser crucianus”.
Conhecer Cristo é conhecer seus sofrimentos.
Observe-se a idéia de “tomar-se semelhante
a ele [Cristo] em sua morte”; o grego tem, talvez,
o sentido de “harmonizar-se a Cristo em sua
morte”, de modo que a vida cristã seja considerada
o processo de ser modelado e forjado de
novo, segundo a imagem do Cristo sofredor.
Então, como devemos descrever a teologia
paulina da cruz? Podemos dizer que, para Paulo,
a cruz permanece, imóvel, como o ponto de referência
fundamental da fé. Foi aqui que a fé começou
e é para cá que a fé vai voltar continuamente,
para ser nutrida pelo Cristo crucificado.
Pela participação em Cristo, o fiel compartilha'
seus sofrimentos e sua morte e um dia — mas
ainda não! — participará de sua gloriosa ressurreição.
E essa esperança vai nos manter e precisa
nos manter na busca da fé. Os fiéis têm vislumbres
dos domínios celestes, até ouvem as vozes
distantes dos anjos — mas permanecem aqui,
dedicados a Cristo crucificado, em meio a um
mundo sofredor. Os domínios celestes permanecem
no futuro, embora sua música distante seja
ouvida agora. A cruz representa a imagem da
vida cristã no mundo, exatamente como representa
a esperança além deste mundo, que os fiéis
partilham com Paulo.
 
Ver também C risto l o g ia ; C r u c ifix ã o ; M a l d
iç ã o , a m aldiçoa do, a n á t em a ; M orte d e C risto ;
Juízo, ju l g a m e n t o ; J u s t ific a ç ã o ; R e ssu r r e iç ã o ;
Ju s t iç a , ju st iç a d e D e u s ; F r a q u e z a ; Sa b e d o r ia .
b i b l i o g r a f i a : R. Barbour. “Wisdom and the
Cross in 1 Corinthians 1 and 2”. In: Theologia
Crucis, Signus Crucis: Festschriftfiir Erich Dinkier.
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A. E. M c G r a t h

 

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