PREGAÇÃO, QUERIGMA

 PREGAÇÃO, QUERIGMA

Em sua carta aos coríntios, Paulo declarou a

prioridade da pregação em seu ministério*:

“Pois Cristo não me enviou para batizar, mas

para anunciar o Evangelho” (ICor 1,17). Esse

Evangelho* era o “poder* de Deus” que levava

à salvação* de todo aquele que crê (Rm 1,16).

Pregar não era um papel que Paulo escolhera

para si. Ele falou que pregar era “uma necessidade”

a ele imposta e confessou: “Ai de mim se

não anunciar o Evangelho!” (ICor 9,16; cf. At

20,24; Jr 20,9). Aos romanos, escreveu a respeito

de ser “consagrado ao ministério do Evangelho

de Deus” (Rm 15,16).

1. Terminologia

2. A mensagem que Paulo pregava

3. Paulo, o pregador

4. Os estudos no século XX

1. Terminologia

Nas cartas paulinas, os dois verbos principais

para pregar são kèryssõ e evangelizomai (mais

de vinte vezes cada um). De modo geral, é seguro

dizer que kéryssõ tende a enfatizar a atividade

de pregar e evangelizomai a qualidade da

mensagem. Entretanto, os grupos de palavras

se sobrepõem em passagens como Romanos

16,25 (“Aquele que tem o poder de vos confirmar,

segundo o Evangelho [euangelion] que

eu anuncio, pregando [kêrygma] Jesus Cristo”.

Ver outras combinações em G1 2,2; Cl 1,23;

lTs 2,9). Mas Paulo também usa outras palavras

em contextos onde elas são, de certo modo,

sinônimos de kêrisso e kêrygma. Essas palavras

incluem os verbos “anunciar ousadamente”

(gnõrizõ, Ef 6,19); “expor” (prographõ, G13,1);

“proclamar” (diangellõ, Rm 9,17); “proclamar

no mundo inteiro” (katangellõ, Rm 1,8); “ser

testemunha/prestar testemunho” (martyreõ,

ICor 15,15); “ensinar” (didaskõ, Rm 2,21) e

os substantivos “anúncio” ou “relato” (akoè, Rm

10,16-17); “testemunho” (martys, ICor 1,6);

“palavra” (logos, Cl 3,16). Além das passagens

que usam as palavras euangel- e kèry- e seus

vários sinônimos, o sermão de Paulo em Antioquia

da Pisídia (At 13,16-43) e o discurso

paulino no Areópago (At 17,22-31; ver Atenas)

dão importante testemunho secundário da pregação

paulina.

2. A mensagem que Paulo pregava

A mensagem paulina concentrava-se na pessoa

de Cristo* (G11,16), especificamente, “um Messias

crucificado” (ICor 1,23) e ressuscitado dos

mortos (ICor 15,12; cf. At 13,30-37; 17,31; ver

Ressurreição). O conteúdo de sua mensagem é

descrito por uma variedade de termos como “palavra

da fé*” (Rm 10,8), “Jesus Cristo Senhor*”

(2Cr 4,5), “o Evangelho” (G1 2,2; Cl 1,23) ou

“o Evangelho de Deus*” (lTs 2,9; 2Cor 11,7;

lTs 2,8), “a fé” (G1 1,23), ou “a impenetrável

riqueza de Cristo” (Ef 3,8). Os Atos dizem que

Paulo proclamou “o Reinado” (At 20,25), ou

“o Reinado de Deus” (At 28,31). Este Evangelho

é o único Evangelho verdadeiro; se alguém

anuncia “um evangelho diferente” é “anátema”

(G1 1,6-8; 2Cor 11,4.13-15).

Paulo entendia que o Evangelho lhe fora

confiado por Deus (Tt 1,3). Portanto, ele evitava

toda adulação e falsidade e falava abertamente

como homem que Deus pôs “à prova

para [lhe] confiar o Evangelho” (lTs 2,4-5). É

esclarecedor que o antigo kèryx grego, ou arauto,

devia ser alguém de integridade que proclamaria

ao povo exatamente o que o rei queria

tomar conhecido. Acrescentar ou tirar alguma

coisa dessa mensagem era considerado traição.

Paulo servia de “embaixador” de Cristo, por

intermédio do qual Deus tomou conhecida a

mensagem de reconciliação (2Cor 5,20; ver

Paz, reconciliação; Apóstolo).

3. Paulo, o pregador

Paulo considerava-se ministro* do Evangelho

(Cl 1,23). Isso acarretava um trabalho árduo

(ICor 15,10; 2Cor 11,24-28), e ele enfrentou

forte oposição (lTs 2,2), sofrimento* (2Tm

1,8) e até a prisão* (F1 1,16; Ef 6,19-20; Fm

13). Contudo, estava ansioso para anunciar o

Evangelho, principalmente em lugares onde

ainda não o tinham ouvido (Rm 1,5; 15,20;

2Cor 10,16).

Desde o nascimento, Paulo foi posto à parte

com o propósito de anunciar o Evangelho (G1

1,15-16; cf. Rm 1,1). No tempo apropriado,

Deus, por sua graça*, chamou Paulo e lhe revelou

seu Filho*, Jesus Cristo (G1 1,15-16). Era

tarefa específica de Paulo pregar o Evangelho

aos gentios* (G1 2,7).

PREGAÇÃO, QUERIGMA

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A pregação paulina não se baseava “no prestígio

da palavra ou da sabedoria*” (ICor 2,1).

Ele não pregava o Evangelho com recurso “à

sabedoria do discurso, para não reduzir a nada a

cruz de Cristo” (ICor 1,17). Era essencial que

a fé se baseasse no poder de Deus, não na sabedoria

humana ou em provas retóricas (apodeixis,

ICor 2,4-5; cf. lTs 1,5; ver Retórica). Assim,

Paulo falava em milagres, “sinais* e prodígios*”

que acompanhavam sua proclamação do Evangelho

(Rm 15,18-19; cf. 2Cor 12,12). Os ouvintes

eram trazidos à fé pela franca declaração do

ato redentor de Deus em Cristo. A origem divina

do Evangelho (G1 1,11-12) inspirava um meio

sobrenatural de comunicação. Nesse processo,

Paulo servia apenas de instrumento humano.

Sem o envolvimento ativo de Deus na pregação,

a mensagem seria uma pedra de tropeço* para

os judeus (que exigiam sinais milagrosos) e loucura

para os gentios (que procuravam sabedoria).

A essa altura, o conteúdo e a atividade da

pregação se harmonizam, pois ambos estão marcados

pela “loucura” (ICor 1,21-25). Somente

aos que crêem a pregação traz salvação (ICor

1,21 -23). A inteligência dos incrédulos está cega,

por isso eles não vêem a iluminação do Evangelho

da glória* de Cristo (2Cor 4,4).

4. Os estudos no século XX

Em 1936 foi publicado o estudo produtivo de

C. H. Dodd a respeito da pregação dos apóstolos.

Ali ele definiu a pregação como “a proclamação

pública do cristianismo ao mundo não-cristão”

(Dodd, 7). Ele chegou ao esboço do kèrygma

primitivo comparando os sermões primitivos dos

Atos com os fragmentos de credo pré-paulinos

nas cartas de Paulo. Um estudo mais tardio do

kèrygma assim descreveu a pregação apostólica:

“proclamação da morte, ressurreição e exaltação

de Jesus que levou a uma avaliação de Sua pessoa

como Senhor e Cristo, confrontava o homem

com a necessidade de arrependimento e prometia

o perdão dos pecados” (Mounce, 84). Todos

esses aspectos da pregação são vistos com clareza

na pregação de Paulo nos Atos. Por exemplo,

a importância da ressurreição é fundamental nos

dois sermões paulinos relatados nos Atos (13,27-

31; 17,31). Mensagem semelhante é sugerida

por 1 Tessalonicenses 1,9-10, que resume o

Evangelho de Paulo como ele foi pregado aos

tessalonicenses: abandono dos ídolos* para servir

ao Deus* vivo e verdadeiro; foi seu Filho

que morreu e que Deus ressuscitou dos mortos

(e exaltou para os céus*), este Jesus virá dos

céus para libertar seu povo da cólera* futura.

A ênfase de Dodd no conteúdo do kèrygma

foi em resposta ao entendimento de R. Bultmann

do kèrygma como a Palavra ativa e eficiente, em

vez de conteúdo, que se dirige aos homens e às

mulheres em sua situação existencial e evoca

uma resposta de fé. Segundo Bultmann, o conhecimento

e o interesse paulino no Jesus histórico

eram mínimos e não constituíam o kèrygma.

Assim, as perspectivas existenciais e históricas

da salvação do kèrygma foram jogadas umas

contra as outras e o termo kèrygma e a questão

de seu caráter exato ganharam um peso muito

maior do que lhe é dado no próprio NT.

Em décadas recentes, foram abordados vários

aspectos da questão. Alguns estudiosos

reexaminaram a questão da familiaridade e do

interesse de Paulo pelo Jesus histórico e seu emprego

da tradição de Jesus em sua pregação. A

afirmação de Bultmann, com base em sua interpretação

tendenciosa de 2 Coríntios 5,16, foi desacreditada

na teoria de muitos estudiosos. Por

isso, o estudo de G. N. Stanton sobre o lugar de

Jesus de Nazaré na pregação cristã primitiva

conclui que “é preciso admitir a possibilidade

de Paulo ter posto mais ênfase nos acontecimentos

anteriores à crucifixão e no caráter de Jesus

em sua pregação que em suas epístolas” (Stanton,

113; ver também Lemcio). Embora as referências

explícitas de Paulo a palavras de Jesus

sejam relativamente poucas, de acordo com algumas

opiniões, as possíveis alusões são numerosas

(ver Jesus, Palavras de). Talvez esse fenômeno

se deva à tradição de Jesus ter sido transmitida

no ambiente da pregação e do ensinamento

missionários iniciais de Paulo.

O exame de vários ambientes e atividades

de comunicação nas comunidades cristãs primitivas

questionou se a pregação se diferencia

nitidamente de outras formas de comunicação.

Que tipo de diferença deve ser traçada entre missão*

e kèrygma de comunidade? Mais importante,

foi traçada uma diferença rígida demais

entre kèrygma e didachè (“ensinamento”)?

PREGAÇÃO, QUERIGMA

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Talvez Paulo indique uma relação entre os dois

em Romanos 2,21, em que o conteúdo de

kêrygma parece ser definido como didachè. J.

I. H. McDonald sugeriu que a diferença entre

kêrygma e didachê está na “situação” e na

“postura” do comunicador, “não na substância

da mensagem... considera-se corretamente que

pregar e ensinar são amplamente complementares

e denotam o processo todo de transmitir a

mensagem apropriada” (McDonald, 5). McDonald

examinou kêrygma no contexto da koinõnia

da comunidade, no qual as palavras didachê

(“ensinamento”), prophêteia (“profecia”, “afirmação

inspirada”), paraenesis (“exortação moral”),

paraklêsis (“pregação exortatória” para

a comunidade) e paradosis (“tradição*”) desempenham,

todas, um papel e têm vários graus

de sobreposição e relação mútua (ver Ensinamento/

Parênese).

Visto que o conteúdo do kêrygma ou evangelho

paulino compartilha as mesmas preocupações

que a questão maior da coerência da

teologia paulina (ver Centro), alguns estudiosos

foram levados a questionar se esse conteúdo

alcançou uma forma final e estável. Não se

desenvolveu com o tempo? É talvez mais bem

entendido como fluente, com um substrato coerente

capaz de expressões contingentes variadas

conforme as circunstâncias (Beker)? Devemos

resumir a estrutura do kêrygma paulino

como conjunto integrado de proposições ou devemos

interpretá-la como narrativa de Jesus, o

Messias? Era o kêrygma paulino (não importa

como seja definido) apenas um entre diversos

kêrygmata da Igreja primitiva, alguns dos quais

Paulo achou compatíveis com seu próprio kêrygma

e outros que ele rejeitou como “um evangelho

diferente” (Dunn)? E até que ponto o

kêrygma de Paulo continuava o kêrygma de

Jesus ou se diferenciava dele? (ver Jesus e Paulo).

Essas perguntas continuam a estimular a pesquisa

de Paulo e da Igreja primitiva e revelam uma

falta de consenso quanto à coerência, ou-ao centro,

do Evangelho paulino e muito menos quanto

a um kêrygma da Igreja primitiva.

Finalmente, a relação entre o kêrygma de

Paulo e o entendimento que ele tinha de si mesmo

como apóstolo* e também da realidade social

de sua missão e seu ministério está sendo

ativamente examinada (ver Abordagens sociocientíficas

a Paulo). Obviamente, a teologia paulina

da cruz moldou seu estilo de vida apostólico,

a maneira como ele imaginava sua missão

e a definição de seu Evangelho contra a de alguns

de seus adversários*.

Ver também A p ó s t o l o ; A t e n a s , P a u l o e m ;

C e n t r o d a t e o l o g ia p a u l in a ; C r ist o l o g ia ; C r e d

o ; C r u z , T e o l o g ia d a ; M o r t e d e C r ist o ; E v a n g

e l h o ; Je s u s , P a l a v r a s d e ; Je s u s e P a u l o ; M in ist

é r io ; M is s ã o ; P r e g a ç ã o d e P a u l o h o je ; R e t ó r

ic a ; A b o r d a g e n s so c io c ie n t ífic a s a P a u l o ; E n -

sin a m e n t o /P a r ê n e s e ; T r a d iç ã o ; T e s t e m u n h o .

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R. H. M o u n c e

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