ORDEM E GOVERNO DA IGREJA - TEOLOGIA PAULINA

 ORDEM E GOVERNO DA IGREJA

Durante a segunda metade do século passado o

ensinamento e a prática de Paulo a respeito de

como as comunidades cristãs eram organizadas

e governadas foram analisados com freqüência.

1 )0 trabalho exegético a respeito de Paulo redescobriu

a dimensão carismática na abordagem

paulina da ordem da Igreja, desenvolveu um

entendimento mais contextuai dessa abordagem

e enfatizou a liderança nativa de suas comunidades.

2) A análise sócio-histórica e sociológica

de Paulo examinou ligações entre as Igrejas de

Paulo e outras instituições, a autoridade* e o

poder*, o carisma e sua transformação em rotina.

Além disso, as perspectivas feministas no

que diz respeito a Paulo discutiram o papel das

mulheres no ministério, à luz de uma análise cultural

de seus escritos.

O que se segue é uma avaliação exegética

da atitude paulina quanto à ordem e ao governo

da Igreja com um compreensível interesse

sociológico. Começa pelo exame de aspectos

característicos e da terminologia envolvida na

abordagem paulina. Em seguida, analisamos

as principais metáforas que ele usa e os modelos

que identifica. Depois damos atenção a dinâmicas

e papéis essenciais da Igreja. Por último,

avaliamos a influência de Paulo e seus colaboradores

nessas congregações.

1. Perspectiva e terminologia

2. Metáforas e modelos

3. Dinâmica e funções

4. Remuneração e comissionamento

5. Apóstolos e colaboradores

6. Conclusão

1. Perspectiva e terminologia

1.1. Diferenças entre a mentalidade moderna

e a antiga. Para as pessoas modernas, questões

de ordem e governo exercem, com freqüência,

grande atração. Organização e liderança são interesses

fundamentais em toda democracia e sociedade

burocrática e racional. A mesma coisa

acontece na vida da Igreja, que está mais democratizada

e burocrática que em épocas anteriores.

Em nossos arranjos sociais e religiosos, apreciamos

a ordem; não é só uma preocupação, mas

uma virtude, não só um meio, mas um fim.

Somos também fascinados pela questão de liderança,

com cadeias de comando, limites de autoridade

etc. Em resultado, estamos em constante

perigo de transferir para as idéias de Paulo em

relação à Igreja* a prioridade que damos a esses

assuntos. Ele certamente estava interessado em

que a Igreja se conduzisse de maneira metódica

e em que os membros recebessem os cuidados e

a instrução de que precisavam. Mas, exceto onde

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eram inadequados ou corriam algum tipo de

perigo, ele fala muito pouco a respeito. Parece

que, para ele, esses eram assuntos secundários,

não primordiais. Onde aspectos mais fundamentais

da vida da Igreja têm prioridade, a ordem

e o governo da Igreja devem, em grande parte,

cuidar de si mesmos.

1.2. A ordem como preocupação secundária.

Se começarmos por examinar apenas as palavras

básicas que Paulo usa ao falar desses assuntos,

o que primeiro nos chama a atenção é a raridade

de termos relacionados com organização e autoridade.

A palavra ordem (taxis) aparece raramente

em Paulo (ICor 14,40; Cl 2,5) e só uma vez

associa-se claramente à Igreja, estando no fim

das instruções aos coríntios a respeito do que

deveria acontecer em suas reuniões (ICor 14,13-

40). Esse emprego de ordem resume uma série

de apelos relacionados a diversos aspectos das

reuniões dos coríntios, apelos com o intuito de

evitar que reinasse a confusão (ICor 14,13-

19.22-23.27-30.34-35). É interessante que Paulo

não use a palavra em ligação com os abusos que

cercavam a Ceia do Senhor (ICor 11,17-34). O

contrário de ordem é “desordem” (akatastasia),

que se liga a discórdia (ICor 14,33; cf. 2Cor

12,20). Paulo nunca sugere que, na assembléia,

é papel de certas pessoas pôr em ordem suas

reuniões. Ao contrário dos gregos, ele não usa

a palavra taxis com relação a um cargo que seja

responsável pela manutenção da ordem (Epicteto,

1,29.39; Josefo, Ant. 7,1,5 §36). A responsabilidade

é de todos, quando compartilham o que

o Espírito lhes concede (ICor 12,7-11) e interpretam

o que o Espírito contribui por intermédio

de outros (ICor 14,28.30.32). A “liturgia” da

Igreja é construção comunitária. A ordem se origina

de um processo altamente participativo e

carismático e não é determinada com antecedência

por alguns. Embora não seja nem puramente

espontânea, nem completamente igualitária, é

dinâmica e criada mutuamente. Não é constitutiva

da Igreja, mas sim funcional e instrumental.

1.3. A autoridade como questão secundária.

A idéia de autoridade* é categoria sociológica

fundamental em toda discussão de governo. Relaciona-

se à maneira como o poder é interpretado

e comunicado. A palavra autoridade (exousia,

“direito, poder”) aparece diversas vezes nos

escritos paulinos com o sentido específico de

recompensa por serviços desempenhados (ICor

9,4-6.12.18; 2Ts 3,9), direito que ele não assume

(2Cor 11,7-10). Somente em duas passagens

Paulo usa a palavra para falar mais amplamente

de sua posição — nunca dos que estão na liderança

das Igrejas locais — e, então, só quando

seu elo apostólico com a Igreja é contestado

(2Cor 10,8; 13,10). Em vista do uso difundido

em grego dessa palavra para indicar alguém em

posição de influência sobre os outros, a relutância

de Paulo em usá-la só pode ser intencional.

Em Corinto, ele certamente deseja restabelecer

seu relacionamento singular com a Igreja, já que

era seu fundador (2Cor 10-13), mas quer se desassociar

da maneira autoritária com que se

comportam os “falsos profetas”. Ele não procura

influenciar os membros por meios impróprios

(2Cor 10,3), vangloriar-se para eles de sua preeminência

(2Cor 10,12-15), deslumbrar a Igreja

com sua retórica (2Cor 11,5-6), nem manipular

e controlar seus convertidos (2Cor 11,16-19; cf.

2Cor 1,24). A “autoridade” que Deus lhe deu é

para “edificar”, não “demolir” e ele não deseja

usá-la com severidade quando chegar. Na verdade,

ele dá à Igreja a oportunidade de mudar de

atitude antecipadamente, para não haver conflito

quando chegar. Essa autoridade é basicamente

carismática e, portanto, diferente da encontrada

em sociedades tradicionais ou em organizações

modernas: é a autoridade da figura de um fundador

incomum, embora um que normalmente

não reivindica sua posição.

2. Metáforas e modelos

Embora termos relacionados a organização e

autoridade não sejam imprescindíveis para a

discussão paulina de organização ou governo

da Igreja, Paulo compõe certas metáforas e

identifica certos modelos de papéis para transmitir

o que tem em mente. Essas imagens em

palavras e essas “epístolas vivas” começam a

proporcionar uma estrutura geral de referência

ou paradigma para a perspectiva paulina. Formam

componentes essenciais do mundo simbólico

que dá origem a seu modo de pensar.

2.1. A famüia como a metáfora fundamental.

Metáforas e analogias tiradas da vida em família

são fundamentais para interpretar o relacioORDEM

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namento de Paulo e seus colaboradores com

as Igrejas que fundaram. Isso não nos surpreende,

pois é essa a linguagem primordial no relacionamento

entre Deus e seu povo. Da mesma

forma que Deus* é visto como “Pai” e os fiéis

como “filhos”, Paulo também se descreve como

“pai” de seus “filhos” na fé (ICor 4,14-15;

2Cor 12,14; lTs 2,11). Não devemos considerar

essa atitude patriarcal ou mesmo paternalista,

mas sim paternal (ver Pastor). Paulo também

fala de si mesmo como “mãe” que sofre as dores

do parto (G1 4,19) e que acalenta ao peito as

crianças que alimenta (lTs 2,7; cf. ICor 3,2).

As instruções a Timóteo nas Pastorais (lTm 5,2)

conservam essa ênfase paulina. Embora esse

grupo de metáforas enfatize o elo afetuoso entre

Paulo e seus convertidos, não devemos interpretá-

lo em termos psicológicos, como nos inclinamos

a fazer ao falar de famílias hoje, nem

esquecer a maior influência que naquela época

os pais tinham sobre os filhos. Isso não acarreta

uma dependência infantil das Igrejas em relação

a Paulo. Ele as exortava a “crescer” em Cristo

e a se tomar adultos na fé (e.g., ICor 14,20; Ef

4,14), o que subentendia conceder-lhes um grau

considerável de autonomia.

Outras metáforas em Paulo, tiradas do mundo

do trabalho, como lavrador (ICor 3,6-9) e

arquiteto (ICor 3,10-15), nada revelam de especial

quanto à natureza do relacionamento entre

o apóstolo e suas Igrejas. Entretanto, enfatizam

seu papel fundamental para iniciar e planejar

a Igreja. A metáfora do corpo (ICor 12,12-27;

Ef 4,1-16), em especial a referência ao papel

unificador e estrutural dos “ligamentos” (haphai),

nos revela algo a respeito do papel central de

pessoas importantes que têm a responsabilidade

primordial de ajudar a manter a unidade e levar

ao crescimento da Igreja.

2.2. Principais modelos a ser seguidos. Ao

lado dessas metáforas, Paulo menciona pessoas

específicas que personificam seu entendimento

de autoridade. A mais importante é Cristo*. Cristo

é, com certeza, o modelo de como os fiéis devem

cuidar uns dos outros (Rm 15,7; G1 6,1) e

também se ocupar da instrução mútua e trabalhar

pela harmonia na congregação (Cl 3,15-16). É

significativo serem essas palavras dirigidas a todos

os membros da Igreja, não apenas a um

grupo central. Paulo também se apresenta como

modelo, precisamente porque ele é imitador de

Cristo (At 20,34-35; ICor 4,16; 11,1; F1 3,17;

4,9). Os fiéis são também incentivados a imitar

os que, no meio deles, como Epafrodito, estiveram

na iminência de morrer “pela obra de

Cristo” (F1 2,30; ver Imitação). Até mesmo

outras Igrejas devem ser imitadas como um todo

(2Cor 8,1-7; lTs 1,7-10). Outros, como Estéfanas

e sua família (sua casa*), que “se dedicaram

ao serviço dos santos” (ICor 16,15), não são

mostrados exatamente como modelos, mas para

serem reconhecidos ou considerados como alguém

sob quem as pessoas devem “ordenar”

sua vida corporativa. Como a palavra aí empregada

para família geralmente se refere a escravos,

esse grupo da Igreja de Corinto atravessa

barreiras de posições sociais (ver Ambiente social).

Na verdade, Paulo continua para dizer que

“todos os que compartilham seus trabalhos e suas

fadigas” merecem consideração (ICor 16,16).

A lista de exemplos é, assim, ilimitada. Os

critérios para se tomar modelo são funcionais,

não formais. Não depende da pessoa ser designada

para uma posição na Igreja. A ênfase de Paulo

em modelos em vez de em posições já indica

que a pessoa é importante para ele, não o caigo,

e que o govemo da Igreja tem mais a ver com

um modo de vida que com um posto designado.

Portanto, Paulo não trata a autoridade como

coisa oficial ou sagrada. Ele a considera principalmente

em termos relacionais e funcionais.

Não resulta na formação de uma elite de liderança,

formalmente destacada dos outros na Igreja.

Somente Cristo tem essa distinção, e ele é o critério

derradeiro de quem deve ser considerado

modelo fundamental para os outros. Aparentemente,

uma ampla série de pessoas pode aspirar

a isso, inclusive os que ocupam uma posição social

mais baixa e, além de indivíduos, um grupo

pode personificá-lo.

3. Dinâmica e funções

A análise social de instituições interessa-se por

examinar sua dinâmica e suas funções. Ao analisar

Paulo, devemos ressaltar que, mais uma

vez, é importante prestar cuidadosa atenção a

sua linguagem, em especial a usada para descrever

as reuniões da Igreja e os que desempeORDEM

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nham um papel significativo no govemo de

suas atividades.

3.1. Alcance e diversidade das contribuições.

Para Paulo, o que acontece nas reuniões da Igreja

origina-se no Espírito e flui por toda a congregação,

em benefício de todos. Todos estão envolvidos

nessa operação (ICor 12,7). O processo

em si é descrito por meio de verbos ativos para

enfatizar seu caráter dinâmico: as contribuições

para as reuniões são “realizadas”, “manifestadas”

e “concedidas” pelo Espírito (ICor 12,7.

11). Paulo usa uma variedade de substantivos

para captar a diversidade do que acontece. É um

exercício de “dons” ou “presentes”, uma variedade

de “serviços” ou “ministérios”, uma série

de “atividades” ou “operações” (ICor 12,4-6).

Os acontecimentos e atividades de palavras concretas

que resultam disso estão relacionados,

com diferenças, três vezes nas cartas paulinas

(Rm 12,4-8; ICor 12,8-11; Ef 4,11-13). Essas

listas realçam a versatilidade e a diversidade

da atividade do Espírito. Como, segundo Paulo,

na Igreja todos têm obrigação de discernir a

validade das contribuições para a reunião, a “liturgia”

é, fundamentalmente, obra do povo (ver

Culto, adoração). Não cabe a uma única pessoa,

um grupo de liderança ou uma comissão

de culto, mesmo que determinado indivíduo

desempenhe um papel mais proeminente no

planejamento do que acontece, por exemplo,

os que têm maior discernimento profético ou

espiritual (ICor 12,10; 14,30).

3.2. Liberdade e forma nas reuniões. Paulo

enuncia alguns princípios orientadores que devem

moldar a sensibilidade dos membros ao Espírito

quando eles se reúnem. Assim como nos

ensinamentos morais ele busca uma abordagem

contextuai imbuída de princípios, em vez de

baseadaunicamente em absolutos, aqui ele exibe

o que pode ser descrito como perspectiva carismática

imbuída de princípios. O que acontece

deve ser inteligível até para estrangeiros (ICor

14,9.16.21), construtivo ou edificante para todos

os membros (ICor 14,26; Ef 4,12), sob o controle

dos que tomam parte (ICor 14,32), cientes

do que deve ter maior prioridade (ICor 14,6) e

motivados pelo amor* (ICor 13,1-3; Ef 4,15).

Esse conjunto de diretrizes dá estrutura ao que

Paulo diz a respeito da necessidade de “ordem”

nas reuniões. Ele não tem em mente uma competição

espiritual ou carismática. Se essas diretrizes

tiverem adesão, não haverá necessidade de

uma ordem de serviço planejada. Há, com certeza,

espaço para a leitura da Escritura ou de cartas*

apostólicas, para hinos* e salmos, doxologias

estabelecidas, bênçãos (ver Bênção*) e respostas

e para confissões ou fórmulas de credo (ver

Credo). Não encontramos aqui nenhuma oposição

entre o carismático e o litúrgico, nem entre

espírito e instituição, mas sim uma transcendência

dessas distinções religiosas e sociológicas.

3.3. A natureza extra-oficial dos ritos sacramentais.

A ação corporativa central das Igrejas

paulinas era a Ceia do Senhor*, provavelmente

uma atividade semanal e, sem dúvida, uma refeição

completa, não apenas simbólica. A dinâmica

social dessa ação corporativa combina com as

que acabamos de descrever em ligação com outros

aspectos das reuniões da Igreja. Mesmo onde

estão presentes abusos que dividem a congregação

e anulam a presença de Cristo na refeição,

Paulo exorta toda a Igreja a tomar uma atitude

responsável (ICor 11,22.27) e cada indivíduo a

ter um discernimento apropriado das necessidades

do outro (ICor 11,28.34). Em nenhuma passagem

das cartas paulinas, contestadas ou incontestadas,

há alguém identificado como presidente

ou celebrante desta refeição. E provável

que esse papel fosse desempenhado pelo anfitrião

ou anfitriã da reunião, na casa de quem se

realizava a refeição. O batismo também era realizado

por pessoas que não eram importantes

no grupo (ICor 1,14-17).

3.4. Ausência de sacerdotes e clero. A referência

a certas pessoas que desempenhavam

um papel maior que o de outras na comunidade

leva-nos à consideração de pessoas importantes

nas Igrejas paulinas. O grego coiné é rico em

termos para quem ocupa cargos oficiais em organizações.

A palavra sacerdote (hiereus) só

aparece metaforicamente em Paulo a respeito

de uma ampla série de atividades piedosas,

compassivas, financeiras e evangelizadoras (cf.

Rm 15,16.27; F12,17.25.30; 2Cor9,12), atividades

às quais não só apóstolos, mas outros

cristãos se dedicam. Isso dessacraliza radicalmente

a função dos que têm um papel a desempenhar

na Igreja e coloca sociologicamente o

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cristianismo primitivo, ao lado do judaísmo

pós-templo, em uma posição inconfundível se

confrontada com a de outras religiões. No que

diz respeito à linguagem para cargos seculares,

somente um desses termos, lugar (arche), aparece

nos escritos paulinos, mas é usado exclusivamente

a respeito da primazia de Cristo na

Igreja (Cl 1,18). De outro modo, predomina a

linguagem de servidão.

Entretanto, devemos mencionar que essa linguagem

de servidão nem sempre evoca idéias

de pessoas humildes que desempenham tarefas

inferiores, como servir à mesa. Os servos de pessoas

sociais e políticas importantes tinham considerável

prestígio e realizavam trabalho administrativo

e burocrático de alto nível. O que determina

o prestígio do servo é quem é seu “senhor”,

e muitos servos ocupavam uma posição

social superior à de homens e mulheres livres

que pertenciam a famílias socialmente inferiores.

Como Cristo é o Senhor dos cristãos, isso

confere dignidade e respeito a seu trabalho servil,

que deve ser respeitado (ver Servo).

3.5. Ênfase na função em vez de na posição.

Ao lado do verbo servir (diakoneõ) e sua forma

nominal servo (diakonos), verbos em vez de

substantivos tendem a ser usados mais freqüentemente

a respeito dos que dão uma contribuição

fundamental à Igreja. Isso significa que as

funções que as pessoas exercem são decisivas,

não as posições que ocupam. Assim, por exemplo,

Paulo se refere aos que “labutam”, “velam”,

“repreendem” e “instruem” (lTs 5,12;

G1 6,6). Ou é a maneira como as pessoas se

comportam (hoi dokimos) durante conflitos na

Igreja que as diferencia das outras (ICor 11,19).

Onde são usados substantivos, como a respeito

dos que são “encarregados” ou “administradores”

(ICor 12,28), eles recebem uma posição

inferior à dos que têm habilidades de curar*

ou operar milagres. Exceto nas cartas Pastorais

(e.g., lTm 5,1-2; Tt 1,5-9), quando se refere a

respeitados cristãos mais velhos que provavelmente

tinham responsabilidade corporativa

por um grupo de Igrejas em uma cidade, a palavra

anciãos (presbyteroi) não ocorre nos escritos

paulinos (mas cf. At 14,23). As palavras

episkopoi e diakonoi aparecem só uma vez

nesses escritos, no plural, e presumivelmente

não como títulos (F1 1,1), e subordinadas aos

“santos” em geral. Nas Pastorais*, onde se diz

mais a respeito, é provável que se refiram respectivamente

a pessoas que hospedam uma

Igreja doméstica e suas assistentes ou esposas

(lTm 3,1-7.8-13).

3.6. Cuidado pastoral e experiência de fa mília.

Como indicam as qualificações relacionadas

nas Pastorais, episkopoi e diakonoi só deviam

ser incentivados a atuar como supervisores

e auxiliares na comunidade se primeiro mostrassem

um comportamento irrepreensível em suas

casas e fossem bem-vistos na comunidade mais

ampla. Isso sugere que as casas, e não as sinagogas

nem as associações voluntárias, é que forneciam

o modelo básico para a liderança na Igreja.

Também sugere que — exceto por alguma aptidão

para ensinar — o mais decisivo eram os

contatos com as pessoas, não as manifestações

de dons carismáticos (lTm 3,1-11; cf. Tt 1,5-8).

Esse é o pano de fundo para anfitriões da Igreja

comoTício Justo (At 18,7), Áquila e Prisca (Rm

16,3), Gaio (Rm 16,23), Ninfa (Cl 3,15), Filêmon

e Ápia (Fm 1-2). A posição social desses

indivíduos fornecia a base para terem preeminência

no grupo se, como Estéfanas e sua família,

“eles se dedicaram ao serviço dos santos”

(ICor 16,15-16). Isso não quer dizer que aqui a

autoridade tradicional substitua a autoridade carismática,

pois, para estar aptas a assumir tal responsabilidade,

essas pessoas precisam de mais

do que posição. O que encontramos é uma abordagem

mais dialética à autoridade, que substitui

e ultrapassa os elementos puramente carismáticos

ou tradicionais.

É notável a maneira como Paulo cita mulheres

nesse grupo pastoral, o que indica que elas

freqüentemente desempenhavam um papel significativo

na vida da congregação. As mulheres

participam do primeiro grupo, entre os apóstolos*

(Rm 16,6-7) e profetas* (ICor 11,5). Para

ele, essas são as duas contribuições fundamentais

que se faz à Igreja (cf. Ef 2,20). As mulheres

também atuavam como evangelizadoras (F14,3),

e entre os colaboradores de Paulo havia um casal

envolvido na instrução de alto nível pelo menos

ocasionalmente (At 18,26). Aqui Paulo se

eleva acima das distinções de sexo e posição de

seu tempo.

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4. Remuneração e comissionamento

Que tipo de reembolso e reconhecimento recebiam

essas pessoas? Vivemos em uma época

na qual o valor das pessoas costuma ser

indicado pela quantia que recebem e pelo caráter

oficial da posição que ocupam. Essa ênfase

na recompensa financeira e na posição

formal não era sem paralelo no século I, mas

mesmo entre outros grupos religiosos elas não

tinham a importância que têm hoje. Em urna

sociedade voltada para o consumo e com consciência

de classe, esses fatores são mais fortes

(ver Apoio financeiro).

4.1. Apoio financeiro, não salário. Parece

que, em sua maioria, os membros principais das

congregações locais trabalhavam de maneira

independente para se manter, como o próprio

Paulo fazia com freqüência. Assim, por exemplo,

Aquila e Priscila eram fabricantes de tendas

(At 18,3), Lídia era comerciante de púrpura

(At 16,14) e Erasto era tesoureiro da cidade (Rm

16,23). Quando Paulo se refere à idéia de pôr

de lado algum dinheiro com fins caritativos, é

para ajudar os santos empobrecidos de alémmar,

não para sustentar o ministério na Igreja

de alguém da localidade (ICor 16,1-4). Segundo

os indícios da correspondência coríntia, Paulo

nem mesmo faz uso dessa recompensa quando

está com uma determinada congregação, embora,

como apóstolo itinerante, fosse apropriado

fazê-lo (ICor 9,4-15). Contudo, ele incentiva

os que, de forma constante, se beneficiam espiritualmente

do ministério da Palavra a compartilhar

o que têm em favor daqueles que os instruem

(G1 6,6; cf. a analogia em Rm 15,27).

Esse pode muito bem ser o sentido da injunção

nas Pastorais para honrar “duplamente” (i.e.,

dar-lhes “honorários dobrados”) os anciãos que

fazem bem seu trabalho, em especial os que se

dedicam ao ensino (lTm 5,17). Assim, embora

não fosse característica da vida da congregação

o emprego em tempo integral de pastores,

mestres, supervisores etc. pela Igreja, era apropriado

dar alguma ajuda para os que despendiam

tempo e esforço a serviço de outros.

Essas pessoas não trabalhavam em tempo integral

na Igreja, mas eram servos de meio período

e ocasionalmente recebiam um reembolso

por seus esforços.

4.2. Reconhecimento eclesial, mas não ordenação.

A ordenação como a conhecemos não

aparece nas cartas paulinas. Há referências a

impor as mãos, mas isso era feito com vários

propósitos, em procedimentos tão diversos quanto

receber o Espírito (At 8,17), curar doenças

(At 9,17), trazer alguém de volta à Igreja (lTm

5,22, apesar de haver quem veja aqui uma referência

à ordenação de anciãos) e enviar em

missão itinerante (At 13,2; cf. 2Tm 1,6). Embora

Atos afirme que Paulo e Bamabé* “designaram

anciãos” em cada Igreja (At 14,23), talvez

isso significasse ratificar a escolha da comunidade,

como aconteceu anteriormente com a imposição

das mãos nos Sete (At 6,3-4; talvez

também At 16,2). A palavra designar pode, com

certeza, ser usada dessa maneira. Quando, em

seus escritos incontestados, Paulo identifica certas

pessoas da Igreja de Corinto que deram uma

contribuição fundamental para a vida da comunidade,

ele apenas pede à congregação que obedeça

(hypotassesthe) a essas pessoas e a orienta a

estender essa atitude “a todos que compartilham

seus trabalhos e suas fadigas” (ICor 16,16). Isso

sugere um reconhecimento não-formal da comunidade,

baseado na qualidade do ministério

a que as pessoas já se dedicam, não em qualificações

externas. Além disso, quando se trata

da Igreja local, é citado sempre um grupo, o

que indica que o trabalho pastoral na congregação

era atividade corporativa, não individual

(cf. At 20,17).

5. Apóstolos e colaboradores

Que papel o apóstolo* e seus colaboradores

desempenhavam na organização e no governo

das atividades das Igrejas que fundaram? O que

já foi mencionado deixa claro que eles tinham

um papel muito importante, mas em que áreas

e de que tipo? Se a relação entre as Igrejas e

Paulo era interdependente, não independente

nem dependente, muito menos co-dependente,

onde e como estavam colocados os limites e

como hoje descreveríamos essa relação sociologicamente?

(ver Colaboradores).

5.1. A extensão e os limites da autoridade

apostólica. Paulo desempenhou um papel visível

no nascimento e na vida continuada das

Igrejas que fundou. Com outras Igrejas, ele não

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pode assumir e não assume uma posição preeminente

(cf. Rm 1,11-13). Mas ele também diferenciava

as Igrejas em si de seu trabalho que

lhes dera existência. Não é a mesma distinção

entre irmandades e modalidades amplamente

usada nos círculos missionários. Em termos sociológicos,

a congregação era uma “comunidade”,

um fenômeno orgânico que se concentrava

primordialmente na qualidade de sua vida

comum e do transbordamento dessa vida nas

vidas de outros. A obra de Paulo e a de outros

apóstolos era uma “associação”, com o enfoque

principal fora de si mesma, no evangelismo e

no planejamento da Igreja.

5.2. Linguagem de persuasão, não comando.

Assim sendo, a organização e o governo das principais

atividades cotidianas das Igrejas paulinas

estavam nas mãos das próprias congregações.

Nas Igrejas, como em Filipos, onde as coisas

iam relativamente bem, Paulo abordava problemas

sem lembrá-las de seu papel de fundador

na vida delas nem de sua autoridade apostólica.

Em outras Igrejas, como em Corinto, onde as

coisas não iam tão bem, e seu papel era contestado,

Paulo tinha de lembrar aos convertidos seu

papel seminal na vida deles (ICor 4,15) e, pelo

menos a distância, desempenhar um papel mais

diretivo em suas atividades. Mas em nenhum

lugar ele adota uma postura autoritária. Em seus

escritos, ele geralmente quer que seus convertidos

o “imitem”, não que o “obedeçam” (cf. também

lTs 3,6; ICor 11,1; G1 4,12; F1 3,17), e

sua instrução é consistentemente expressa na linguagem

de um “apelo” (ICor 4,6) baseado no

amor (Fm 8), em vez de na linguagem de um

“mandamento”, exceto ocasionalmente (cf. ICor

14,37). Seus raros chamados à obediência têm

mais a ver com dar a resposta apropriada a suas

afetuosas exortações (2Cor 2,9), permanecer fiel

ao Evangelho* (Fm 21; cf. F12,12) ou acatar as

inspirações do Espírito (lTs 4,8).

5.3. A autoridadefundamental cabe a Cristo,

não aos apóstolos. Tudo isso está de acordo com

certos aspectos característicos do método paulino

de atuar. Tendo deixado com eles o evangelho

(ICor 15,3), certa instrução básica (lTs 4,1)

e seu exemplo (At 20,34-35) — além das Escrituras

veterotestamentárias (ICor 14,34), alguns

ditos de Cristo (ICor 7,10) e diversas regras que

vigoram em todas as suas Igrejas (ICor 11,16)

— ele está convencido de que agora suas comunidades

têm os recursos para amadurecer em

sua vida comum. Ele estará ali, se precisarem

de conselhos quanto a certos assuntos (e.g., ICor

7,1; lTs 4,13), e as visitará de vez em quando

para ver a quantas andam (At 15,36). Em uma

situação que requer disciplina*, ele ainda “estabelece

limites”, entretanto não como autoridade

externa, hierárquica, mas como membro importante

cujo espírito está presente nas deliberações

delas, até quando ele está ausente (ICor 5,3-5;

Cl 2,5). Mesmo os que não têm posição social

possuem a sabedoria para lidar com algumas

controvérsias na comunidade (ICor 6,4-5), embora,

em outras ocasiões, a Igreja toda deva fazer

isso (ICor 5,1-5). Seu propósito é aumentar a

capacidade que as comunidades têm de cuidar

desses assuntos, trabalhando com elas sem “senhorear”

sua fé (2Cor 1,24). Se ele for forçado

a enfrentá-las, as “armas” que traz são as armas

da palavra de Deus (2Cor 10,3-6), e sua preferência

é ir “com amor e num espírito de doçura”

(ICor 4,21). Sua autoridade básica se origina

do evangelho que ele recebeu a missão de

anunciar, não do direito de sua missão em si.

Somente enquanto suas palavras refletirem esse

evangelho (G1 1,9) e estiverem de acordo com

o Espírito (ICor 7,40) suas Igrejas devem lhe

dar ouvidos. Sua autoridade é instrumental, não

inerente e, embora poderosa graças ao chamado

divino, está sujeita ao discernimento cristão de

seus convertidos.

5.4. O poder derivado dos colaboradores de

Paulo. Colaboradores como Timóteo e Tito só

têm autoridade funcional ou secundária, baseada

no conceito da obra que empreendem ou na transmissão

da mensagem paulina a suas Igrejas. Não

têm nenhum direito automático preferencial. Com

fieqüência, Paulo precisa defendê-los, citando sua

ligação com ele e seu conhecimento das atividades

dele, bem como sua fidelidade à tarefa apostólica,

às vezes com risco de suas vidas (F12,19-

23; Cl 4,7-8; ICor 16,10-11; 2Cor 8,17.23). Ao

visitar Igrejas, esses colaboradores têm um papel

a desempenhar, mas como itinerantes (cf. 2Cor

7,15), não na qualidade de residentes.

Neste ponto, as Cartas Pastorais são reveladoras.

Embora haja sinais de que refletem um

ORDEM E GOVERNO DA IGREJA

ORDEM E GOVERNO DA IGREJA

estado de coisas mais tardio e mais estruturado,

os colaboradores de Paulo ainda não têm um papel

formal estabelecido nas congregações, mas

um papel exemplar de embaixadores (lTm 2,12-

15; 6,11-12; 2Tm 1,8; 2,22-24; 3,10; Tt 2,7).

Nas Igrejas, devem relacionar-se com as pessoas

de maneira familial, que reflita sua idade e sua

experiência limitadas, em vez de uma posição de

mando (lTm 5,1-2). Eles transmitem instrução

a respeito de como as Igrejas devem organizar

certos aspectos do culto e se governar, mas não

apresentam regras para controlar esses aspectos

(lTm 3,6; 2Tm 2,2-7; Tt 2,1-9). Os papéis principais

da congregação devem ser assumidos por

indivíduos e casais irrepreensíveis em seu meio

(lTm 3,1-13; Tt 1,5-9), que os colaboradores de

Paulo só podiam ajudar a identificar pelo conhecimento

fornecido pelas próprias Igrejas.

E óbvio que, apesar dos laços estreitos com

suas Igrejas, Paulo lhes dava considerável liberdade

para melhorar a própria vida e para cada

uma fazer isso à sua maneira. A diversidade na

unidade também é a regra aqui. Achar que as

Pastorais mudam e transformam em rotina essa

situação é ignorar a natureza temporária do papel

de seus colaboradores nessas Igrejas. Parece ter

havido certo grau de formalização, por exemplo,

no que é dito a respeito das mulheres, mas

isso pode, em parte, ter sido induzido por determinados

problemas locais. Apesar de tudo, as

Pastorais ainda inspiram a mesma coisa que as

outras cartas paulinas.

6. Conclusão

O entendimento paulino da ordem e do governo

da Igreja sofreu mudanças durante sua vida?

Têm sido feitas tentativas ocasionais para organizar

isso, mas, devido à natureza concisa de

muita coisa que ele escreveu e da prova indireta

que temos dos contextos que ele abordava, é difícil

tirar conclusões definidas. Sem dúvida, seu

entendimento aumentava à medida que ele lidava

com os diferentes problemas que enfrentava.

Mas as principais linhas de sua abordagem são

claramente discemíveis em seus escritos mais

primitivos. Assim, embora devamos sempre estar

abertos a detectar mudanças de ênfase ou

mesmo de conteúdo em seu tratamento dessas

questões, é improvável que encontremos muita

coisa ou que consigamos montar uma trajetória

de aprendizagem simples. É mais fácil identificar

certas diferenças entre o que dizem os escritos

incontestados e as Pastorais, embora mesmo

ali seja necessário ter mais cautela do que a freqüentemente

demonstrada.

Ver também A p ó s t o l o ; A u t o r id a d e ; C o r p o

d e C r is t o ; I g r e j a ; C o l a b o r a d o r e s , P a u l o e

s e u s ; D is c ip l in a ; S o l id a r ie d a d e , c o m u n h ã o ,

p a r t il h a ; A p o io f in a n c e ir o ; D o n s d o E sp ír it o ;

E spír it o S a n t o ; C a s a s e c ó d ig o s d o m é s t ic o s ;

I m it a ç ã o d e P a u l o / d e C r is t o ; H o m e m e m u l

h e r ; M in is t é r io ; P a s t o r , P a u l o c o m o ; P o d e r ;

S e r v o , s e r v iç o ; C u l t o , a d o r a ç ã o .

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R. B a n k s

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