Material de Hermenêutica


Hermenêutica

Prof Márcio Ruben

A Inspiração da Bíblia

A Bíblia é divinamente inspirada. Por inspiração entendemos a influência sobrenatural exercida pelo Espírito Santo sobre os escritores sacros. Em virtude da qual seus escritos conseguem veracidade divina, e constituem suficiente e infalível regra de fé e prática. “Os homens santos de Deus (hagiógrafos) falaram movidos pelo Espírito Santo de Deus”.
A inspiração se distingue da revelação no sentido restrito de imediata comunicação de Deus através de palavras. A primeira garante infalibilidade no ensino, enquanto que a última acrescenta o tesouro de conhecimentos. Ambas, porém, devem ser consideradas como modo de revelação de Deus em sentido mais amplo, isto é, maneiras pelas quais Deus faz conhecer ao homem sua vontade, suas obras, seus propósitos.

I. Provas Escriturísticas da Inspiração Divina:
1.       A Bíblia ensina claramente que os órgãos da revelação foram inspirados.
·      As expressões que a Bíblia emprega para descrever as funções proféticas implicam necessariamente na idéia de uma inspiração direta: Ex 7.1; Dt 18.18; Jr 1.9; 2 Pe 1.21.
·      As expressões proféticas mostram claramente que os profetas eram cônscios do fato que iam ao povo com a Palavra do Senhor: “Assim diz o Senhor”; “Ouvi a Palavra do Senhor”; “Assim me mostrou o Senhor Deus”; “Veio a Palavra do Senhor...”.
·      Os profetas passam rapidamente do uso da terceira pessoa para a primeira, sem incluir a frase “diz o Senhor”. Eles surpreendem o leitor por começarem a falar como se fosse Deus: Is 3.4; 5.3; 10.5; 27.3; Jr 5.7; 16.21; Os 6.4; Jl 2.25; Am 5.21; Zc 9.7 etc.
·      Jesus prometeu aos seus discípulos o Espírito Santo para ensinar-lhes todas as coisas e fazer que se lembrassem de tudo que lhes havia ensinado. Os discípulos, a partir do Pentecostes, sabem quando suas palavras são as palavras de Deus e estão certos que o seu testemunho é o testemunho de Deus: Jo 14.26; 1Ts 2.13; 1Jo 5.9-12.
2.        A Bíblia ensina a inspiração da Palavra escrita:
·    He graphe – a Escritura; hai graphe – as Escrituras (Rm 9.17; Lc 24.27). Para Cristo e seus discípulos um apelo he graphe significava por fim a toda controvérsia. Seu “Está escrito” equivalia “Deus diz”. Esses escritos são chamados graphai hagiai (Rm 1.2) e ta hiera grammata (2Tm 3.15); “os oráculos de Deus” (Rm 3.2).
·    O Que a Escritura diz é simplesmente atribuído a Deus. Além disso, em Rm 9.17 e Gl 3.8 citam-se palavras do Antigo Testamento com a expressão “A Escritura diz”, enquanto nas passagens originais, Ex 9.16; Gn 22.18, quem fala é Deus.
·    O Lócus Classicus para o estudo da inspiração da Bíblia é 2Tm 3.16. A palavra Theo-pneustos significa sopro de Deus, isto é, o produto do sopro de Deus.
·    Outra importante passagem 2Pe 1.19-21. Não é de particular interpretação, isto é, não resulta da investigação humana, nem é mero produto do próprio pensamento do escritor. Não resultou da vontade do homem, mas é dom de Deus.
·    Paulo usa o presente demonstrando que suas palavras aos coríntios também eram inspiradas (1Co 2.7-13).
II.   Teorias da Inspiração
1.       A teoria da intuição natural faz com que a inspiração seja principalmente um alto grau de percepção. Vem de uma capacidade artística, um talento natural. Os autores das Escrituras eram gênios religiosos.
2.       A teoria da iluminação especial sustenta que houve influência do Espírito Santo sobre os autores das Escrituras, mas que isso implicou apenas uma intensificação de suas capacidades normais, uma sensibilidade e percepção aumentadas no que dizia respeito as questões espirituais.
3.       A teoria dinâmica destaca a combinação dos elementos divino e humano no processo de inspiração da Bíblia. O trabalho do Espírito de Deus foi o de dirigir o escritor aos pensamentos ou conceitos que ele devia ter, deixando que a própria personalidade característica do escritor participasse da escolha das palavras e expressões.
4.       A teoria verbal sustenta que a influência do Espírito Santo foi além da direção dos pensamentos, chegando a seleção das palavras usadas para transmitir a mensagem.
5.       A teoria do ditado é o ensino de que Deus de fato ditou a Bíblia aos escritores. Não há diversidades de estilos que possa ser atribuída a diferentes autores dos livros bíblicos.

III. A Relação entre o Divino e o Humano na  Autoria Escriturística
1.        Os autores humanos da Bíblia não foram máquinas, nem mesmo amanuenses. O Espírito Santo não reduziu suas liberdades nem destruiu suas individualidades:
·    Em muitos casos, os autores investigaram de antemão a matéria a respeito da qual pretendiam escrever. Exemplo: Lucas; os autores de Reis e Crônicas.
·    Os escritores muitas vezes expressaram suas experiências. Exemplo: Moisés, Lucas, Salmistas.
·    Muitos livros da Bíblia têm caráter ocasional. Sua composição foi motivada por circunstâncias externas, e seu caráter determinado pelas condições morais e religiosas dos leitores originais. Exemplo: Epístolas de Paulo, de Pedro e de Judas, também em grau menor outros escritores.
·    Os vários livros se caracterizam por uma marcante diferença de estilo. Ao lado da exaltada poesia dos Salmos e dos Profetas, temos a prosa comum dos historiadores. Ao lado do hebraico clássico de Isaías, temos a linguagem influenciada pelo aramaico nos escritos de Daniel, o estilo dialético de Paulo, ao lado da exposição simples de João.
2.     O Espírito Santo usou os escritores da Bíblia como eles eram, com suas idiossincrasias pessoais, seu caráter e temperamento, seus talentos e educação, suas preferências e aversões. Há, entretanto, uma importante limitação: o Espírito Santo não permitiu que sua natureza pecaminosa se expressasse.


Princípios Teológicos de Interpretação na Igreja Cristã

Na patrística o princípio teológico de interpretação se prende a três diferentes centros da vida da Igreja:
I.                Escola de Alexandria:
1.     Toda a Escritura deve ser entendida alegoricamente – Clemente (150-215).
2.     O sentido que o Espírito Santo dá é simples, claro e digno de Deus. Tudo que parece obscuro, imoral e inconveniente na Bíblia serve simplesmente como incentivo para ultrapassar o sentido literal – Orígenes (185-254).
II.           Escola de Antioquia:
O interprete deve ser verdadeiramente científico, reconhecendo a necessidade de determinar o sentido original da Bíblia – Teodoro (393-458) e Crisóstomo (morreu em 407). Para Teodoro ao invés da interpretação alegórica há a interpretação histórico-gramatical.
III.     Escolas do Ocidente:
Há alguns elementos alegóricos e outros literais, todavia, acrescente-se a autoridade da tradição e da Igreja na interpretação – Ambrósio (340-397), Jerônimo (340-420), Agostinho (354-430).



Na Escolástica o principio de interpretação teológica tinha que se adaptar à tradição e à doutrina da Igreja.
1.       Aprende-se primeiro o que se deve crer e então vai à Bíblia para encontrar a confirmação – Benedito, Hugo.
2.       “Quod ubique, quod semper, quod ab omnibus creditum est”. “O que tem sido acreditado em todos os lugares, sempre e por todos”. Axioma muito usado pelos escolásticos.

Os reformadores partiram do princípio que a Bíblia é a Inspirada Palavra de Deus, a mais alta autoridade e a Corte final de toda a apelação em todas as questões teológicas.
1.       Não é a Igreja que determina o que as Escrituras ensinam, mas as escrituras que determinam o que a Igreja deve ensinar.
2.       Scriptura Scripturae Interpres, isto é, a Escritura é a interprete da Escritura.
3.       umnis intellectus ae expositio Scripturae sit analogia fidei – toda a compreensão e exposição da Escritura seja de acordo com a analogia da fé.
4.       O direito do juízo privado; o contexto e as circunstâncias históricas; a intuição espiritual e fé; encontrar Cristo em toda Escritura – Lutero (1483-1546).
5.       As Escrituras devem ser entendidas gramaticalmente antes de o serem teologicamente; as Escrituras têm apenas um simples e determinado sentido – Melanchton
6.       Primeiro dever de um intérprete, permitir que o autor diga o que realmente diz, ao invés de lhe atribuir o que pensamos que devia dizer – Calvino (1509-1564).
7.       Deve ser mantida a autoridade da tradição eclesiástica; a interpretação de acordo com a autoridade da Igreja e o assentimento unânime dos Pais – Igreja Católica – Contra Reforma.


No período do confessionalismo da interpretação teológica houve o risco de se deixar escravizar pelos Padrões Confessionais da Igreja. A exegese se tornou serva da dogmática e degenerou-se em mera busca de textos prova.   Reações:
1.       A Bíblia deve ser interpretada de modo racional ou em harmonia com a razão – Socinianos.
2.       As palavras da Escritura significavam o que podiam significar em todo discurso; há algumas vezes uma multiplicidade de pensamentos - Coccejus
3.       A Bíblia devia ser interpretada sem preconceitos dogmáticos e com o auxilio da lógica e da análise – Turrentin.
4.       Estudo da Bíblia nas línguas originais e sob a influência e iluminação do Espírito Santo. O estudo porismático, isto é, aquele que tira inferências para repreensão e o prático consistindo de oração e busca penetram no âmago da verdade; os sentimentos do intérprete devem estar em harmonia com o autor – Pietistas – Bengel.

No período histórico-crítico da interpretação teológica procurou ver o elemento humano da Bíblia. Nega-se o caráter sobrenatural da inspiração (Schleiermacher -1768-1834). As duas escolas gramatical e histórica:
I.                     Interpretação Gramatical (Ernesti):
1.     Somente é importante o sentido literal;
2.     As interpretações alegóricas devem ser evitadas a não ser que contribuam para o sentido literal;
3.     O sentido gramatical em comum com outros Livros;
4.     O sentido literal é superior ao sentido dogmático.
II.            Interpretação Histórica (Semler – 1725-1791)
1.       Atenção para o aspecto humano da origem histórica e da composição da Bíblia.
2.       Grande parte do conteúdo da Escritura é local e efêmero, não tem valor normativo para todos os homens em todos os tempos.
3.       O elemento de verdade é aquele que serve para aperfeiçoar o caráter moral do homem.
III.          Interpretação Mítica (Strauss – 1808-1874)
O Trabalho de Jesus e seu ensino deixaram impressão tão profunda sobre os seus discípulos que depois de sua morte, atribuíram-lhe palavras e obras maravilhosas que se esperavam do Messias incluindo a ressurreição.
IV.          Interpretação da Escola de Tubingen (Baur –  1792-1860)
4.       O Novo Testamento originou-se de acordo com o princípio hegeliano: tese, antítese e síntese.
5.        A hostilidade entre facções paulina e petrina originou uma literatura reconciliadora.
V.            Interpretação dialética ou neo-ortodoxa.
6.       A concepção meramente histórico-crítica da exegese deve ser substituída por uma compreensão teológica que parte da fé, não da analogia entis, na tensão entre finitude criada e infinitude incriada, mas apenas pela via paradoxal da analogia fidei - Karl Barth (1886-1968).
7.       A interpretação teológica das Escrituras está intimamente ligada às perguntas filosóficas que fazemos. Há uma correlação (método de correlação) entre o intérprete e a resposta encontrada. Paul Tillich (1886-1965).
8.       A hermenêutica existencial e a desmitificação buscam uma reconstrução do significado do texto, compreendendo-o e explicando-o. Rudolf Bultmann – (1884-1976)

O Teólogo e sua Mensagem
I. A Necessidade de sermos coerentes
A Teologia nos leva a falar com mais coerência, organização e propriedade. Teólogos, cristãos verdadeiros adoradores, com mensagens que compelem as pessoas a agir e amar a Deus. O Teólogo possui a revelação e precisa torná-la compreensiva. Se há termos difíceis em Teologia devem ser explicados e aplicados.
II. A Teologia e a sua forma
1.       Uma Teologia Clara: Precisamos de coerência no que acreditamos. Seja numa obra ou numa crítica cabe ao teólogo ter suas idéias organizadas.
2.       A importância da Teologia: mostrar as pessoas à necessidade de se ter uma doutrina, uma teologia sistemática.
3.       O modo de transmissão: o estilo escrito é o mais exato e o estilo dos debates é o mais dramático. Na transmissão escrita são censuradas as repetições de palavras já na transmissão oral é algo que faz parte da fixação.
4.       A Sistemática: há uma conexão entre as partes da teologia. A base dessa conexão está na proposição defendida, isto é, declaração simples e específica. Esta proposição teológica sempre será uma verdade eterna, definida.
III. O Desenvolvimento Teológico
2.     O desenvolvimento teológico envolve a explanação, a argumentação e a demonstração.
3.     O pensamento teológico verdadeiro exprime a realidade do Novo Testamento e é na sua essência Cristocêntrico. “A teologia que não tem Cristo não é Teologia, é Heresia”.
4.     A teologia demonstrativa nos leva a definição da Doutrina estudada. A definição deve dar o quê, o por quê, o como e a aplicação (qual o resultado) desta doutrina. Por exemplo: A Regeneração. O que é regeneração? Por que a regeneração? Como ocorre a regeneração? Qual é o resultado da regeneração?
5.     A teologia sempre estará ligada a enunciados ou afirmações de caráter moral e ético. Pois não basta sermos apenas coerentes, precisamos estar estruturados sobre a realidade. Algo que nos ligue aos nossos leitores e ouvintes. Eles ouvem em geral o que previamente se identificam e de maneira inteiramente individual.
IV.      A Teologia Como Prioridade
1.       A Autoridade: Há algo no coração humano que responde ao que proclama com convicção; O que falta hoje é a autoridade. A mensagem da Bíblia é singular e cabe ao teólogo expô-la.
2.       O teólogo precisa de coerência e conhecimento suficientes em seus escritos ou discursos para levar seus leitores e ouvintes acima de seus conhecimentos terrenos, o qual estão apegados por natureza e elevá-los para mais perto dos céus.
3.       O cristão está entre a vida e a morte e é preciso com urgência que o cristão entenda que está ali entre Deus e os homens, falando entre o tempo e a eternidade.





Literatura Auxiliar

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Princípios de Interpretação Bíblica - Berkhof
 Berkhof



Introdução a Hermenêutica Cristã - Walter Kaiser

 Walter Kaiser





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