HELENISMO - TEOLOGIA DE PAULO

 HELENISMO

O helenismo refere-se à cultura grega, principalmente

a que se difundiu em todo o Oriente

Próximo depois das conquistas de Alexandre

Magno. A palavra foi popularizada pelo historiador

J. G. Droysen em Geschichte des Hellenismus,

1836-1843. Ele derivou o termo da

ocorrência dos helenistas em Atos 6,1.

As conquistas de Alexandre difundiram o

uso do dialeto koine (Koinê, “comum”), forma

simplificada do grego ático, do Egito ao Afeganistão.

Visto que a Torá não baniu especificamente

coisas como literatura, drama, filosofia,

arte e jogos desportivos, muitos judeus chegaram

a vários graus de adaptação à cultura grega.

1. A época helenística

2. Os resultados da helenização

3. A erudição quanto ao helenismo e o NT

4. A helenização e o NT

1. A época helenística

A época clássica das cidades-estado foi substituída

pela ascensão dos macedônios sob a liderança

de Filipe e seu filho Alexandre, que com

o uso da força unificaram os gregos e iniciaram

uma cruzada contra os persas.

1.1. Alexandre. Alexandre Magno, a quem

Aristóteles deu aulas particulares, tomou-se rei

da Macedônia em 336 a.C. Magnífico general,

conduziu seu exército de cerca de 30 mil soldados

ao centro do Império Persa. E irônico que

os macedônios, que para o orador ateniense

Demóstenes eram “bárbaros”, fossem os maiores

divulgadores da cultura grega. Alexandre

promoveu a fusão das culturas grega e persa e

o casamento com mulheres nativas. Fundou

mais de trezentas cidades gregas, notavelmente

Alexandria, no Egito.

1.2. Os diádocos. Depois da morte de Alexandre

em 323, seus territórios foram divididos

entre seus generais, os diádocos (“os sucessores”).

Depois de muita violência destrutiva, até

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mesmo assassinatos de todos os membros da

família de Alexandre, três reinos principais foram

fundados por volta de 275 a.C.: o dos antigônidas

na Macedônia, o dos ptolomeus no

Egito e o dos selêucidas na Síria.

1.3. Os ptolomeus. Ptolomeu apoderou-se

do Egito, o país mais rico do mundo antigo. Ele

e seus sucessores herdaram uma administração

altamente centralizada. Não só no Egito, mas

também na Palestina, que governaram até 198

a.C., os ptolomeus exerceram rígidos controles

para arrecadar a máxima quantia de impostos de

seus súditos. Suas diretrizes políticas levaram

a injustiças na distribuição de propriedades em

benefício das elites que lhes eram fiéis. A princípio,

todos os cargos de poder e prestígio eram

ocupados pelos macedônios/gregos e seus descendentes.

Os egípcios natos ficavam restritos

aos níveis inferiores e tinham até de obter permissão

especial para residir em Alexandria.

Aos poucos, porém, com casamentos mistos

por parte dos gregos e a conquista da língua e da

cultura gregas por parte dos egípcios, a diferença

étnica tomou-se menos importante que as culturais.

Um ponto decisivo foi quando Ptolomeu IV

Filipátor, em sua luta com os selêucidas, teve de

recrutar 20 mil egípcios para o exército, a fim de

vencer a batalha de Ráfia em 217 a.C.

Os judeus constituíam importante minoria

no Egito ptolomaico e acabaram por ocupar dois

dos distritos de Alexandria. Os indícios dos papiros

judaicos indicam que os judeus logo abandonaram

o aramaico em favor do grego. Um

passo muito decisivo foi dado com a tradução

do AT para o grego, a Septuaginta, projeto que

se iniciou sob os auspícios de Ptolomeu II (c.

270 a.C.) e que continuou talvez por mais de um

século até ser terminado. A Carta de Aristéias

relata a lenda de 72 estudiosos judeus enviados

pelo sumo sacerdote judeu ao Egito para fazer

a tradução. Aristéias defendeu a lei judaica e a

educação e a cultura gregas. A primeira referência

a sinagogas são inscrições gregas que aparecem

no período ptolemaico.

Aristóbulo, conselheiro de negócios judaicos

para Ptolomeu VI (180-145 a.C.), começou

a tradição de uma interpretação alegórica de

passagens do Pentateuco que eram consideradas

ofensivas aos gostos gregos. O clímax dessa

tendência a ver as Escrituras através de lentes

helenísticas está resumido nos numerosos

escritos do filósofo judeu Fílon de Alexandria

(30 a.C.-50 d.C.), que empregou alegorias para

reinterpretar as Escrituras em termos do platonismo

médio. Judeu helenizado, mas mesmo

assim leal, Fílon foi escolhido para chefiar uma

missão diplomática ao imperador Gaio (37-42

d.C.), a fim de protestar contra o mau tratamento

dos judeus pelo governador.

1.4. Os selêucidas. Os territórios do império

de Alexandre que Seleuco adquiriu eram de

longe os mais extensos e se estendiam do Mediterrâneo

à Pérsia. Como os ptolomeus, os selêucidas

procuraram manter o poder e os privilégios

nas mãos das elites macedônias/gregas.

Um estudo indica que mesmo depois de duas

gerações só 2,5 por cento dos cargos de autoridade

eram ocupados por naturais do lugar. Entretanto,

Seleuco herdara um território grande

demais, com muitas populações diferentes. Em

meados do século III a.C., Bactriana era um

reino independente e os partos tinham conquistado

a Pérsia. Os selêucidas não reconheceram

suas limitações e lutaram em vão para reconquistar

os territórios perdidos. Ficaram por fim

restritos à região da Síria.

Depois de tuna luta implacável com os ptolomeus,

os selêucidas finalmente obtiveram o

controle da Judéia em 198 a.C. Antíoco III (225187

a.C.) foi muito generoso com os judeus,

pedindo apenas que rezassem por seu bem-estar.

Foi Antíoco IV (176-165 a.C.) que provocou a

Revolta Macabéia (165 a.C.) por causa de sua

política de substituição do judaísmo pelo helenismo.

Os acontecimentos estão relatados em

1 e 2 Macabeus e nas obras de Josefo.

O incidente fatídico começou em 175 a.C.,

quando Jasão, irmão do sumo sacerdote em

carga Onias, subornou Antíoco IV para ser empossado

naquele cargo. Em seguida, Jasão pediu

autorização para estabelecer um ginásio e

uma efebia (para ephêboi, jovens entre 18 e 20

anos) em Jerusalém (2Mc 4,7-9). 2 Macabeus

4,10 declara: “Tendo o rei anuído à sua proposta,

Jasão, assim que se apossou do poder, induziu

os seus irmãos de raça a trocarem o seu estilo de

vida pelos dos gregos” (pros ton hellénikon charaktèra).

O ginásio onde jovens atletas do sexo

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masculino se exercitavam e praticavam lutas nus

chocava as suscetibilidades judaicas. Alguns

judeus que desejavam competir chegaram a

passar por operações para disfarçar a circuncisão*.

Os formados pelo ginásio, os efebos, usavam

o chapéu grego de aba larga.

Antíoco substituiu Jasão por Menelau, que,

segundo Josefo, era um helenizador ainda mais

radical. Iniciou-se a guerra civil, com as massas

apoiando Jasão e os tobíades helenizados da

Transjordânia apoiando Menelau. Com o incentivo

de Menelau, Antíoco reprimiu com severidade

a insurreição. Em 167 a.C., suas forças

ocuparam Jerusalém e espoliaram o Templo, maculado

então com o que Daniel chamou de “abominação

da devastação” — a imposição de três

ídolos efêmeros sobre o altar. Uma guarnição

chamada Acra foi colocada perto do Templo e

havia planos para estabelecer uma polis grega,

Antiocata, em Jerusalém. Os judeus deviam abandonar

suas leis e não observar o sábado, nem

realizar a circuncisão.

Só no fim de 167 ou início de 166 a.C. os

judeus rebelaram-se contra os sírios, sob a liderança

de Matatias, sacerdote da cidadezinha de

Modin, e seus filhos. Depois de derrotar os

selêucidas, sob a liderança de Judas Macabeu,

os jubilantes judeus celebraram a rededicação

do Templo (Hanukkah), em 164. Antíoco V escreveu

uma carta em 163 onde reconhecia:

“Ouvimos dizer que os judeus não concordam

com as mudanças que nosso pai fez para os

costumes gregos e preferem seu próprio modo

de vida”. Apesar disso, em 143 a.C., os judeus

declararam-se um estado independente (ver

Movimentos revolucionários).

A revolta macabéia não deve ser entendida

como rebelião contra o helenismo, mas sim contra

o paganismo. Os hasmoneus, os descendentes

de Matatias e seus filhos, demonstraram sua aceitação

de muitos dos elementos não-religiosos da

cultura grega. O elaborado mausoléu de Simão

foi construído em estilo helenístico. Muitos dos

hasmoneus tinham nomes gregos e também hebraicos:

Judas Aristóbulo, Alexandre Janeu, Matatias

Antígono. Janeu gravou suas moedas em

grego e também em hebraico, e empregou mercenários

gregos. Aristóbulo chamava a si mesmo

“Fileleno”, isto é, “admirador da cultura grega”.

1.5. Os romanos. Os romanos tomaram

conhecimento da cultura grega já no século

VIII a.C., com o estabelecimento de colônias

gregas na Itália e na Sicilia. Mas foram as vitórias

posteriores das legiões romanas sobre as

falanges gregas nas Guerras Macedônias que

trouxeram uma abundância de objetos e escravos

gregos para a Itália. Perseu, o último rei da

Macedônia, foi derrotado pelos romanos em

Pidna em 167 a.C. Quando as cidades gregas da

Liga Acaiana tramaram uma rebelião, os romanos

destruíram completamente a cidade de Corinto

em 146, para servir de exemplo.

Embora vitoriosos na guerra, os romanos

foram conquistados pela superioridade da cultura

grega, apesar dos inúteis protestos de conservadores

como Catão contra vícios gregos como

o homossexualismo*. E difícil haver um aspecto

de cultura superior que não tenha sido decididamente

influenciado pelos gregos: arte, arquitetura,

literatura, drama, medicina, filosofia e religião

foram todos profundamente afetados pelos

gregos. Depois do século II, esperava-se que os

romanos cultos soubessem grego tão bem quanto

latim. É significativo que Fílon de Alexandria

louvasse Augusto (Fílon, Leg. Gai. 147) como

alguém “que ampliou a Hélade por muitas novas

Hélades e helenizou as regiões mais importantes

do mundo exterior”.

2. Os resultados da helenização

Os resultados de três séculos de helenização são

mais bem demonstrados pelas provas textuais

proporcionadas por papiros, inscrições, moedas

e artefatos recuperados por escavações arqueológicas

no antigo Egito, em Roma e na Palestina.

Do século II a.C. ao século II d.C., o grego se

tomou a língua mais comum nas conversações

entre os povos encontrados na área a leste da

Itália até o Levante.

2.1. No Egito e em Roma. Os textos judaicos

da Itália e do Egito são predominantemente

em grego. Com a exceção do Papiro Nash, todos

os papiros do Egito relativos aos judeus

estão em grego. Com exceção de cinco, todas

as 116 inscrições do Egito relacionadas com

os judeus também estão em grego. Em Roma,

estão em grego 405 das 534 inscrições judaicas,

ou 76 por cento do total. Uma análise dos

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nomes das tropas judaicas no Egito indica que,

no século III a.C., 75 por cento de seus nomes

são gregos. Em Roma, cerca de metade dos

nomes são latinos e um terço são gregos. Os

nomes preferidos são Dositeo, Teodoto e Teodoro,

todos referentes ao dom de Deus (cf. os

nomes hebraicos Natanael e Jônatas).

2.2. Na Palestina. A helenização transformou

as áreas ao redor da Judéia como a Decápole

e os centros urbanos, mais que a zona rural judaica.

Gadara, cidade da Transjordânia, gerou

Menipo, o satírico, Meleagro, o poeta, e Filodemo,

o filósofo epicurista. Herodes Magno (374

a.C.) intensificou o processo de helenização

na Judéia. Seu secretário foi Nicolau de Damasco,

que incentivou Herodes a escrever sua autobiografia

em grego. Segundo Josefo (Ant. 15,8,1

§§267-270), Herodes estabeleceu jogos qüinqüenais

em honra de Augusto, construiu um teatro

em Jerusalém e um anfiteatro na planície.

Construiu o Templo em Jerusalém em um profuso

estilo greco-romano com stoas ou pórticos

com colunatas (cf. Jo 10,23).

Foi provavelmente como expressão de rebeldia

contra o paganismo greco-romano que os

rebeldes judeus na Primeira Revolta (66-73 d.C.)

e também na Segunda Revolta (132-135) usaram

inscrições hebraicas em suas moedas. Mas as

cartas de Bar Kókeba, que liderou a Segunda

Revolta, indicam que ele e seus seguidores usaram

o grego, além do aramaico e do nabateu.

3. A erudição quanto ao helenismo e o NT

A questão do “helenismo” desempenha importante

papel na análise do desenvolvimento do

cristianismo e da teologia paulina. Os primeiros

biblistas consideraram-no fator decisivo na transformação

mais tardia do cristianismo em uma

espécie de religião* de mistério helenística, mas

estudos recentes indicam que o judaísmo helenístico

já era um fator nas etapas mais primitivas

do ministério e da mensagem de Jesus.

3.1. A escola da história das religiões. Os

estudiosos da escola da história das religiões

procuraram explicar a teologia paulina com base

em um contraste entre os cristãos palestinenses

mais primitivos e um cristianismo helenístico mais

tardio. W. Heitmüller (1910) sugeriu que Paulo

derivou do cristianismo helenístico de Antioquia

sua concepção do título kyrios (“Senhor”), da

Eucaristia e do misticismo* de Cristo. No célebre

livro Kyrios Christos (1913,1921; ET 1970),

W. Bousset afirmou que primeiro Jesus foi chamado

kyrios, não na comunidade primitiva, mas

sim no cristianismo helenístico. Essa idéia foi

popularizada por R. Bultmann em sua obra influente

Theology o f the New Testament (1951,

1955). Em The Titles o f Jesus in Christology

(1963; ET 1969), F. Hahn pressupôs três etapas

antes de Paulo: 1) cristianismo palestinense, 2)

cristianismo judaico helenístico e 3) cristianismo

gentio helenístico (ver Paulo e seus intérpretes).

3.2. Martin Hengel. Para protestar contra

essa dicotomia artificial, M. Hengel produziu

uma série notável de monografias eruditas (entre

1974 e 1989). Depois do exame completo dos

indícios literários e epigráficos, Hengel concluiu

que o judaísmo palestinense era um judaísmo

helenístico tanto quanto o da diáspora*. Em sua

opinião, a suposta distinção entre um cristianismo

hebraico primitivo e um cristianismo helenístico

mais tardio está mal orientada, conclusão

a que I. H. Marshall já tinha chegado. Hengel

comenta: “Raramente há no Novo Testamento

um tema doutrinal que não fosse também cogitado

ou ensinado na Palestina.... Até uma cristologia

da preexistência e do Filho de Deus não é intrinsecamente

‘helenística’, nem mesmo ‘não-judaica’

ou ‘não-palestinense’” (Hengel, 1989,55).

Embora sua erudição seja impressionante e

embora seu ponto principal seja admitido, Hengel

freqüentemente expande seus argumentos

em um esforço para maximizar os indícios de

um helenismo primitivo na Palestina. Mesmo

se aceitarmos como palestinense a literatura judaica

do ancião Fílon, as tragédias de Ezequiel,

o romance dos tobíades, Eupólis e outros escritos

fragmentários, poucos seriam levados a concluir

com Hengel que, à exceção de Fílon, a

produção literária de Jerusalém era maior que a

dos judeus de Alexandria. Como prova da influência

helenística, ele chega a citar escritos

abertamente anti-helenísticos como os de Ben

Sirac e os Manuscritos de Qumran*. Mas a esmagadora

predominância de rolos em hebraico

e aramaico em contraste com os poucos fragmentos

em grego de Qumran indica que a comunidade

de Qumran mantinha conscientemente

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uma posição tradicional contra a intromissão

do helenismo.

3.3. L. H. Feldman. Na opinião de L. H.

Feldman, embora os elementos helenísticos fossem

extensos, eram, em essência, superficiais e

não afetaram profundamente a natureza do judaísmo.

Em especial, Feldman não se deixa

persuadir de que a helenização extensiva ocorreu

antes da revolta macabéia. As inscrições citadas

por Hengel revelam apenas um conhecimento

elementar do grego. Onde Hengel encontra influência

grega em Ester, Tobit e Judite, Feldman

prefere ver influência egípcia ou persa. Onde

Hengel maximiza os indícios com demasiada

freqüência, Feldman freqüentemente os minimiza.

Ele menciona o fato de Josefo ter admitido

precisar de ajuda para aperfeiçoar seu grego

(Josefo, C. Ap. 1,9 §50). A língua materna de

Josefo era o aramaico; seu grego tinha pronúncia

imperfeita, mas ele era, com certeza, capaz de

falar e escrever mais que adequadamente em

grego. Feldman menciona que as inscrições da

Alta Galiléia indicavam haver ali pouca helenização.

Mas a Alta Galiléia era uma região particularmente

remota.

4. A helenização e o NT

O fato de ser o NT escrito em grego koine indica o

efeito mais óbvio da helenização. Em sua maioria,

as citações do AT no NT são da Septuaginta.

4.1. Atos. O conflito sobre a distribuição de

comida entre os hellènistai e os hebraioi em

Atos 6,1-6 foi, provavelmente, um conflito entre

judeu-cristãos de língua grega e judeu-cristãos

de língua aramaica. Os membros do primeiro

grupo incluíam judeus de regiões da diáspora

como Cirene, Alexandria, Cilicia e Ásia Menor

(At 6,9). Embora ambos fossem bilíngües, cada

grupo usava sua língua materna no culto. Foram

os helenistas, inclusive os diáconos Estêvão e

Filipe, que tomaram a dianteira no anúncio do

evangelho aos samaritanos (At 8) e aos gentios

(At 11,19-20). Hengel e outros biblistas atribuem

aos cristãos helenísticos de Jerusalém a

iniciativa de possibilitar o anúncio do evangelho

além das fronteiras de Israel.

4.2. Paulo. Paulo nasceu na Cilicia, em Tarso,

cidade célebre por seus filósofos* estóicos.

Entretanto, como provavelmente veio para Jerusalém

aos 12 anos para estudar com o famoso

rabino Gamaliel, Paulo recebeu quando muito

uma educação secundária helenística. Ele era

capaz de falar a multidões na “língua dos judeus”,

isto é, em aramaico (At 21,40; 22,2

[BMD; CNBB]; ver Paulo, o judeu). Embora

Paulo evite as exibições mais floreadas da oratória

grega (ICor 2,1-4), mesmo assim suas cartas

empregam artifícios retóricos como quiasmo

(ICor 3,17), litotes (Rm 1,28), aliteração (2Cor

6,3), clímax (Rm 8,29-30), oximoro (2Cor 6,9) e

paranomásia (2Cor 3,2), e ele enfrenta seus

adversários sofísticos (em 2Cor 10-13) usando

as técnicas e os procedimentos deles (e.g., synkrisis,

“comparação”; ver Retórica).

Há apenas três citações incontestáveis de

literatura clássica no NT. Em seu famoso discurso

do Areópago diante de estóicos e epicuristas

em Atenas*, Paulo citou Phenomena de Aratos

(At 17,28): “Pois nós somos de sua raça”. Em

1 Coríntios 15,33, Paulo citou da peça Thais do

poeta Menandro o verso: “As más companhias

corrompem os bons costumes”. EmTíto 1,12, é

citado De Oraculis de Epimênides: “Cretenses,

perpétuos mentirosos, animais ferozes, panças

ociosas”. Como eram ditos comuns, não provam

que Paulo leu as obras literárias nem que assistia

a peças, mas mostram que seu conhecimento de

tais obras era suficiente para usá-las como exemplos

em sermões e cartas.

4.2.1. Teatros. Teatros eram invariavelmente

construídos em cidades helenísticas. Herodes

Agripa I (40-44 d.C.) generosamente proporcionou

teatros e banhos para cidades como Beirute.

Estava assistindo ao teatro em Cesaréia (At

12,20-23; cf. Josefo, Ant. 19,8,2 §343-344),

quando foi atingido pela doença fatal. Como judeu

helenizado, Fílon nos relata que assistia ao

teatro em Alexandria (Fílon, Ebr. 177): “Por

exemplo, muitas vezes, quando acontecia de estar

no teatro, observei o efeito produzido por alguma

melodia entoada pelos atores no palco ou

tocada pelos músicos”. Por outro lado, os rabinos

se opunham à freqüência ao teatro porque a

tragédia grega era representada sob os auspícios

de deuses como Dionísio. O magnífico teatro

em Éfeso estava lotado com 24 mil efésios que

gritavam o louvor de sua deusa em protesto contra

os esforços missionários de Paulo (At 19,29).

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4.2.2. Ginásios. O ideal grego depaideia,

“educação”, incluía não só literatura e retórica,

mas também música e atletismo. O ideal grego

de uma pessoa era a mente sã em um corpo belo.

O orador Isócrates disse: “Aquele que compartilha

nossa paideia é um grego em um sentido

mais alto que aquele que apenas compartilha

nossa origem”.

O ginásio onde atletas masculinos se exercitavam

gymnos, “nus”, era elemento essencial

de uma cidade helenística. Pausânias declarou:

“Nenhum ginásio, nenhum teatro, nenhum suprimento

público de água — nenhuma cidade”.

Ginásios foram estabelecidos em lugares longínquos

do império de Alexandre, até em Susa,

no sudoeste da Pérsia, e no Afeganistão. Foi a

tentativa de estabelecer um ginásio em Jerusalém

que ajudou a provocar a crise macabéia.

Herodes Magno estabeleceu ginásios em cidades

pagãs, mas não na Judéia propriamente dita.

Uma das posições mais prestigiosas na cidade

era a do ginasiarco, ou funcionário encarregado

dos jogos. Os formados pelo programa

do ginásio, os efebos, originalmente serviam no

exército. Mais tarde, na época helenística, os

efebos formavam um estrato social que fornecia

os líderes da cidade. No Oriente, os ginásios

perpetuavam o modo de vida grego como uma

ilha protegida em um mar de bárbaros. Pais

ambiciosos inscreviam os filhos em listas de

espera para entrar nos ginásios. Finalmente,

ricos cidadãos helenizados eram admitidos no

círculo encantado.

A princípio, os judeus tiveram dificuldade

para aceitar essa instituição estrangeira, em especial

porque os jogos costumavam ser dedicados

a um deus ou a um herói grego como Héracles.

Mas, com o tempo, os jogos atléticos se tomaram

uma parte tão aceita da cultura, que temos

provas registradas da participação judaica na vida

dos ginásios de Hipepa na Lídia, Iásio na Cária,

Coronéia em Messena, Toqueira e Cirene em Cirenaica.

Em carta famosa, Cláudio (41-54 d.C.)

advertiu os judeus alexandrinos contra forçarem

sua aceitação nos jogos da ginasiarquia.

Fílon de Alexandria não via nenhum problema

em assistir aos jogos e deles tirar exemplos.

Foi dos domínios do atletismo que Paulo

tirou muitas de suas notáveis imagens do pugilismo

(ICor 9,26), da corrida no estádio (G12,2;

ICor 9,24; F1 3,13-14; lTm 6,12) e do treinamento

atlético (ICor 9,25; 2Tm 2,5). Embora

reconhecesse o valor dos gymnasia corporais,

Paulo exortou Timóteo a, em vez disso, exercitar-

se na piedade (lTm 4,7-8). O. Broneer infere

que quando estava em Corinto Paulo assistiu aos

jogos pan-helênicos perto de Istmia. A referência

paulina à coroa atlética perecível (ICor 9,25)

parece ser referência específica à coroa de aipo

seco dos jogos ístmicos.

4.2.3. Filosofia. A influência da filosofia*

grega nos judeus e nos judeu-cristãos é muito

debatida. Ela se mostra mais claramente em

Fílon. Também se afirma que idéias platônicas e

estóicas estão presentes em obras como 4 Macabeus

e Sabedoria de Salomão. Embora alguns

rabinos proibissem o ensinamento da sabedoria

grega, Gamaliel II, neto do mestre de Paulo,

tinha 500 alunos de sabedoria grega, além de

500 alunos da Torá. Os rabinos mencionavam

pelo nome apenas dois filósofos, Epicuro e Enómao

de Gadara. E significativo que, entre as duas

mil palavras gregas no corpus talmúdico, não

haja nenhum termo filosófico grego.

H. Koester escreve: “mas se Paulo tinha algum

conhecimento real da filosofia grega, com

certeza esse conhecimento não influenciou materialmente

sua teologia, nem ele jamais se preocupa

de modo crítico com qualquer assunto da

tradição da filosofia grega” (Koester, 1965,187).

Seguindo R. Bultmann, Koester acredita que a

pregação paulina era dependente do modelo da

diatribe cínico-estóica. Embora haja muitos paralelos,

segundo E. A. Judge (1972,32-33), eles

se explicam melhor pela linguagem coloquial

comum da época. Quaisquer termos estóicos que

Paulo tenha usado, ele lhes deu um significado

completamente não-estóico (Comish). Quando

confrontou estóicos e epicuristas em Atenas (At

17,18), Paulo com certeza não modificou sua

mensagem da ressurreição corporal de Jesus —

conceito que era completamente inaceitável para

os filósofos gregos.

Ver também A po lo ; A t en a s, P a u lo e m ; C ristologia;

D láspora; G en tio s; G n o se , gnosticism o ;

P a u lo , o ju d e u ; Se n h o r ; P aulo e seu s in térpre t

e s; F ilo so fia ; R eligiõ es g r e c o -r o m a n a s; M ovim

entos revolucionájuos; R e tórica; Sa be d o r ia .

HELENISMO

HERMENÊUTICA/INTERPRETAÇÃO DE PAULO

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E. M. Y a m a u c h i

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