GRAÇA - TEOLOGIA PAULINA

 

Graça

 

Quase dois terços (100 de 154) das ocorrências

neotestamentárias de charis, normalmente traduzida

por “graça”, se encontram nas cartas paulinas.

O termo se encontra em todas as treze cartas

paulinas tradicionais e é bastante repetido em

Romanos* (23 vezes) e nas Cartas aos Coríntios*

(18 vezes em 2 Coríntios; 10 vezes em

1 Coríntios). Na prática paulina, a palavra charis

tem o sentido básico de “favor” (cf. hebr. hèn,

“favor” e hésed, “fidelidade” no AT; ver Esser;

Conzelmann), e quando Deus* ou Cristo* são

o sujeito agindo em graça para com a humanidade

é favor imerecido. Em especial, isso é

evidente em contextos que se referem à salvação*

ou aos dons do Espírito* (onde o termo

análogo charisma sobrepõe-se a charis). Paulo

emprega charis como saudação epistolar usual,

mas, mesmo nesse contexto, o termo parece ter

conotação teológica. Com sujeitos humanos, às

vezes charis refere-se a ação de graças (a Deus),

a uma coleta* ou oferenda (que recorda a graça

divina) ou a um discurso benevolente ou encorajador

dirigido aos outros.

 

1. A graça de Deus e Cristo

2. A graça da salvação

3. Os dons da graça

4. Saudações de graça

 

1. A graça de Deus e Cristo

corpus paulino inclui numerosas menções à

“graça de Deus” (ou “sua graça”) e à “graça

de Cristo” (ou sua versão alongada, “a graça do

[de nosso] Senhor Jesus Cristo”). A última frase

embeleza a conclusão de mais da metade das

cartas paulinas (e.g., Rm 16,20 E o Deus da paz, em breve, esmagará

debaixo dos vossos pés a Satanás. 

A graça de nosso Senhor Jesus seja convosco.

ICor 16,23 A graça do Senhor Jesus seja convosco. ;

2Cor 13,13 A graça do Senhor Jesus Cristo, e o amor de Deus, 

e a comunhão do Espírito Santo sejam com todos vós.), 

talvez assinalando um resumo em

forma de clímax ao ligar charis ao título messiânico

divino completo “o Senhor Jesus Cristo”.

Em 2 Tessalonicenses 1,12, a expressão “a graça

de nosso Deus e do Senhor Jesus Cristo”

(NTV) indica o elo inseparável entre a charis de

Deus e Cristo.

F. Fisher chega a afirmar que Paulo entende

charis como “Deus que age de acordo com seu

próprio caráter e sua própria existência” (Fisher,

86), e que “graça” não significa apenas um atributo

ou atitude divina, mas “o próprio Deus”

(Fisher, 86). Quer Paulo pretendesse ou não

fazer tal identificação, notamos uma estreita correlação

entre Deus e sua graça na “bênção” prolongada

e rítmica (ver Bênção, invocação, doxologia,

ação de graças) de Efésios 1,3-14 

Bendito o Deus e Pai de nosso Senhor Jesus Cristo, que nos tem abençoado com toda sorte de bênção espiritual nas regiões celestiais em Cristo, assim como nos escolheu, nele, antes da fundação do mundo, para sermos santos e irrepreensíveis perante ele; e em amor nos predestinou para ele, para a adoção de filhos, por meio de Jesus Cristo, segundo o beneplácito de sua vontade, para louvor da glória de sua graça, que ele nos concedeu gratuitamente no Amado, no qual temos a redenção, pelo seu sangue, a remissão dos pecados, segundo a riqueza da sua graça, que Deus derramou abundantemente sobre nós em toda a sabedoria e prudência, desvendando-nos o mistério da sua vontade, segundo o seu beneplácito que propusera em Cristo, de fazer convergir nele, na dispensação da plenitude dos tempos, todas as coisas, tanto as do céu como as da terra; nele, digo, no qual fomos também feitos herança, predestinados segundo o propósito daquele que faz todas as coisas conforme o conselho da sua vontade, a fim de sermos para louvor da sua glória, nós, os que de antemão esperamos em Cristo; em quem também vós, depois que ouvistes a palavra da verdade, o evangelho da vossa salvação, tendo nele também crido, fostes selados com o Santo Espírito da promessa; o qual é o penhor da nossa herança, até ao resgate da sua propriedade, em louvor da sua glória.

Ali lemos que a apreciação da “riqueza da sua graça”

em Cristo (Ef 1,7) deve resultar em “louvor da

sua glória e da graça” (Ef 1,6). É evidente que esse

“louvor” acarreta uma “bênção” (gr. eulogètos)

do “Deus, Pai de nosso Senhor Jesus Cristo”,

que “abençoou” (gr. eulogèsas) os fiéis em Cristo

(Ef 1,3). Em essência, oferecer louvor a sua graça

gloriosa é louvar a Deus. Algumas passagens

empregam charis para expressar a resposta humana

de irresistível gratidão traduzida em ação

de graças a Deus (e.g., ICor 15,57). Ocasionalmente,

é a menção da graça divina no contexto

imediatamente anterior que inspira a grata enunciação

de charis (gratidão) humana a Deus (e.g.,

Rm 6,14.15.17; 2Cor 9,14.15). Colossenses 3,16

declara o ideal, que um cântico de “gratidão”

(gr. en chariti) a Deus deve fortalecer tudo que

os colossenses* “digam ou façam” (Cl 3,17). A

surpreendente realidade da charis divina exige

vima resposta reverente da charis humana a Deus.

 

2. A graça da salvação

A mensagem paulina de graça está habilmente

resumida em Efésios 2,5: “é por graça que vós

estais salvos”. É certo que Conzelmann está correto

quando conclui: “Em Paulo, charis é um

conceito central que expressa com clareza o entendimento

que ele tinha do evento da salvação”

(Conzelmann, 393). Mas para Paulo a graça não

é uma atitude ou característica de Deus não

revelada anteriormente, como se antes ele fosse

conhecido apenas como divindade colérica. A

graça fala do “ato totalmente generoso de Deus”

(Dunn, 202; cf. Bultmann, 288-290), que reflete

a natureza totalmente generosa de Deus.

Para Paulo, a graça de Deus abrange um

campo amplo, que remonta à graça do propósito

divino de eleição pré-temporal (Ef 1,3-6; ver

Eleição), inclusive sua escolha de um resto judaico

(Rm 11,5-6; ver Israel). Abrange a oferta

real da mensagem do evangelho*, a que Paulo

se refere como charis no lugar de (2Cor 4,15) ou

permutável com (Cl 1,5-6) o termo euangelion

(“evangelho”). Porém, fundamentalmente, a graça

refere-se a um acontecimento central, a ação

escatológica de Deus em Jesus Cristo (assim

Bultmann, 289), à medida que ela é experimentada

no dom presente (dõrea/dõrean) de justificação*

escatológica que se origina da graça

divina e da qual a fé* se apropria (Rm 3,24;

4,4-5.16). Os fiéis continuam a experimentar

essa graça na obra de santificação contínua em

suas vidas (Rm 5,2.21; 6,1.14.15).

O próprio Paulo encontrou uma experiência

pessoal única de graça divina no meio da fraqueza*

do sofrimento* prolongado com seu “espinho”

na carne (2Cor 12.7 - 10 7E, para que não me ensoberbecesse com a grandeza das revelações, foi-me posto um espinho na carne, mensageiro de Satanás, para me esbofetear, a fim de que não me exalte. 8Por causa disto, três vezes pedi ao Senhor que o afastasse de mim. 9Então, ele me disse: A minha graça te basta, porque o poder se aperfeiçoa na fraqueza. De boa vontade, pois, mais me gloriarei nas fraquezas, para que sobre mim repouse o poder de Cristo. 10Pelo que sinto prazer nas fraquezas, nas injúrias, nas necessidades, nas perseguições, nas angústias, por amor de Cristo. Porque, quando sou fraco, então, é que sou forte.). 

Aqui e em outras passagens de Paulo, a graça é usada como sinônimo

ou em lugar do poder* divino (dynamis;

cf. Rm 5,20-21 Sobreveio a lei para que avultasse a ofensa; mas onde abundou o pecado, superabundou a graça, 21a fim de que, como o pecado reinou pela morte, assim também reinasse a graça pela justiça para a vida eterna, mediante Jesus Cristo, nosso Senhor. ) e, em certos casos, parece ser

usada como correlativo do Espírito* de Deus

(cf. Rm 6,14 Porque o pecado não terá domínio sobre vós; pois não estais debaixo da lei, e sim da graça.

e Gl 5,18 Mas, se sois guiados pelo Espírito, não estais sob a lei. 

; ver Bultmann, 290-291;

Dunn, 203).

Uma salvação tão cheia de graça do começo

ao fim pode ser interpretada erroneamente como

incentivadora da continuidade do pecado na vida

do cristão (Rm 6,1), uma noção que o apóstolo

denuncia nos termos mais enérgicos (gr. mê genoito,

“Por certo que não!”): os que morreram

para o pecado não podem continuar vivendo nele

(Rm 6,2). A verdade é exatamente o contrário:

enquanto as obras da lei (G12,16; ver Obras da

lei) não fazem parte da justificação, que é só

pela graça (Ef 2,8-9), as boas obras devem ser o

centro da vida de gratidão que deve caracterizar

os que foram salvos pela graça divina (Ef 2,10).

charis de Deus, manifestada na salvação* (Tt

2,11), tem ainda o efeito de ensinar (gr. paideuõ)

aos fiéis um estilo de vida moderado e piedoso

enquanto aguardam a vinda de seu grande Deus

e Salvador* Jesus Cristo (Tt 2,12-13). Sua gratidão

pela charis divina deve motivar uma resposta

de zelo* pelas boas obras (Tt 2,14).

Ao escrever aos coríntios, Paulo apela à graça

de Deus concedida às Igrejas macedônias,

que, apesar de sua pobreza, foram movidas pela

graça a derramar suas oferendas para os santos

de Jerusalém (2Cor 8,1-4). Os coríntios, que

também receberam a graça de Deus em seus

dons espirituais (parece que seus charismata estão

subentendidos em 2Cor 8,1) e vieram a conhecer

o supremo modelo da graça de nosso

Senhor Jesus Cristo (2Cor 8,9), são chamados

a responder da mesma forma (en tautè tè chariti,

“nesta graça”, 2Cor 8,7 [“nesta obra de generosidade”,

BMD]). Eles devem cumprir uma antiga

promessa de ajudar a Igreja de Jerusalém na

hora da necessidade (ICor 16,3; ver Coleta).

 

3. Os dons da graça

Na maioria das vezes, a literatura paulina desenvolve

o conceito de dons espirituais em tomo

da idéia estreitamente relacionada de charisma,

com o sentido de “dom pessoal com graça”,

sempre concreta em sua expressão (Esser, 121;

ver Dons do Espírito). Ocasionalmente, porém,

charis é também usado provavelmente para enfatizar

a fonte da graça divina que proporciona

e fortalece os dons. Em Romanos 12,6, encontra-

se charis ao lado de charisma para realçar o

imerecimento dos vários dons espirituais que

Deus concedeu (Rm 12,6-8). Aparentemente, esse

sentido de ser agraciado pelos vários charismata

(Rm 12,6) destinava-se a promover a unidade

do corpo de Cristo (Rm 12,4-5; ver Corpo

de Cristo). Ao seguir um apelo um tanto diferente

à “unidade do Espírito” (Ef 4,3) e do corpo

(Ef 4,4-6), charis dõrea, outra palavra para

“dom”, introduz (Ef 4,7) a mais seletiva e inconfundível

das passagens paulinas que tratam dos

dons espirituais (Ef 4,7-11).

Paulo se refere com freqüência a seu dom

espiritual de apostolado {ver Apóstolo) e às funções

relacionadas em ligação com a “graça” incluída

nesse chamado. Contra o pano de fundo

da controvérsia na Galácia, Paulo fala da “graça”

que lhe foi dada (G12,9). Alhures, ele usa a mesma

linguagem para se referir a seu papel apostólico

concedido pela graça como um sacerdote

ou oficiante litúrgico que serve ao evangelho a

fim de que a oferenda dos gentios* seja aceitável

(Rm 15,15-16). Ou ele fala de si mesmo como

um arquiteto (ICor 3,10), como um veículo da

revelação divina (Ef 3,2) e como servo* e ministro

do evangelho aos gentios (Ef 3,7-8).

 

4. Saudações de graça

Todas as cartas paulinas, sem exceção, contêm

charis como saudação inicial e parte do prólogo

epistolar normalmente formal (ver Cartas). Mais

uma vez, sem exceção, todas elas têm charis

como parte da bênção final (e.g., Rm 16,20:

“Que a graça de nosso Senhor Jesus Cristo esteja

convosco!”). Esse emprego consistente foi estudado

por T. Y. Mullins e outros como elemento

do estilo epistolar neotestamentário.

Ao adotar charis como parte da saudação,

Paulo parece substituir a saudação helenística

costumeira, chairein (“saudações”), por uma

palavra rica em significado teológico.

Os 26 casos desse emprego são estatisticamente

significativos o bastante para ser analisados

apenas como aspecto estilístico, mas parece

haver mais aí do que apenas estilo. Um indício

da importância desse aspecto encontra-se na

comparação do emprego de charis nas introduções

e nas conclusões. Enquanto todas as cartas

ajuntam “graça” e “paz”* (e.g., Rm 1,7; ICor

1,3) em suas introduções (embora lTm 1,2 e

2Tm 1,2 insiram “misericórdia” entre “graça”

e “paz”), só “graça” volta a ocorrer nas conclusões.

Talvez isso seja apenas um aspecto do estilo

paulino, mas talvez também represente uma

ampla estrutura de inclusio. O uso consistente do

artigo definido, “a graça”, nas conclusões (gr.

hé charis), talvez também indique essa intenção

da parte de Paulo. No mínimo, de acordo com

um princípio dominante na teologia paulina (ver

acima), todas as cartas paulinas começam e terminam

com uma nota de graça. Não é improvável

que o apóstolo pretendesse que todos os seus escritos

fossem considerados dentro da estrutura

abrangente da graça divina, do começo ao fim.

Além disso, no contexto evangelístico de

Colossenses 4,6, Paulo adverte que a palavra

do evangelho precisa sempre ser apresentada de

maneira sensível e em graça (gr. en charití). Em

Efésios 4,29, lemos que a comunicação verbal

entre os cristãos deve se concentrar na edificação

(gr. oikodome) e em necessidades, em especial

objetivando “proporcionar uma graça” (i.e.,

benefício espiritual) aos que ouvem as palavras.

Nos dois casos, essa afetuosa preocupação pode

ser entendida como reflexo da graça divina.

 

Ver também B ê n ç ã o , in v o c a ç ã o , d o x o l o -

g ia , a ç ã o d e g r a ç a s ; C o l e t a pa ra o s s a n t o s ;

A p o io f in a n c e ir o ; P e r d ã o ; D o n s d o E s p ír it o ;

E spír it o S a n t o ; M is e r ic ó r d ia .

 

b i b l i o g r a f i a : R. Bultmann. The Theology o f

the New Testament. New York, Scribners, 1951,

1955, 2 vols., 1, 288-292; H. Conzelmann.

“Xápiç ktA". TDNT IX, 393-398; J. D. G.

Dunn. Jesus and the Spirit. Philadelphia, Westminster,

1975,202-205; H.-H. Esser. “Grace”,

NIDNTI 2, 115-124; F. Fisher. Paul and His

Teachings. Nashville, Broadman, 1974,85-102;

W. Manson. “Grace in the NT”. In: The Doctrine

o f Grace. W. T. Whitley (org.). London,

SCM, 1932; C. L. Mitton. “Grace” IDB 2 ,464467;

J. Moffatt. Grace in the NT. New York,

Long and Smith, 1932; T. Y. Mullins. “Greetings

as a NT Form”. JBL 87, 1968, 418-426;

C. R. Smith. The Bible Doctrine o f Grace.

London, Epworth, 1956; G. P. Wetter. Charis.

Leipzig, Brandstetter, 1913; R. Winkler. “Die

Gnade im Neuen Testament”. ZSTh 10, 1933,

642-680.

A. B. L u t e r , Jr.

 

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