FILOSOFIA - TEOLOGIA PAULINA

 

Filosofia

FILOSOFIA
Havia quatro filosofias principais que dominavam
o campo intelectual no século I d.C.: os
platônicos médios, os adeptos da “doutrina do
Pórtico” (mais tardia), os peripatéticos e os epicuristas.
Além deles, havia os cínicos, que mendigavam
para viver e se misturavam ao povo,
oferecendo conselhos morais em nível popular.
No mundo antigo, a filosofia era considerada
parte normal da educação que preparava o jovem
para o serviço público e até para a liderança
militar. Por isso, a influência da filosofia
era muito difundida entre as classes altas e os
indivíduos de posses que tinham recursos para
estudar. Poucos estudavam para ser filósofos
profissionais ou liam mais que uma pequenina
seleção de textos primordiais, mas resenhas dos
dogmas de uma escola como encontramos em
Diógenes Laércio eram fonte comum de conhecimento.
A terra natal de Paulo, a cidade de
Tarso, orgulhava-se de uma florescente escola
de filosofia. Embora seja improvável que ele
a tenha freqüentado, é razoável supor que Paulo
tomou conhecimento de alguma filosofia na
juventude, embora sua instrução tenha sido em
Jerusalém. A literatura* judaica do período helenístico
revela a influência da filosofia grega
(ver Helenismo).
1. Escolas de filosofia
2. Paulo e a filosofia helenística
1. Escolas de filosofia
1.1. Elementos comuns. O platonismo, o aristotelismo
e o estoicismo partilhavam algumas características
uns com os outros e com o pensamento
helenístico em geral. Todos afirmavam
haver uma divindade suprema acima e por trás
de quase todas as forças sobrenaturais, contudo
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raramente era contestada a realidade do tradicional
panteão de deuses. Esses deuses eram considerados
filhos ou servos da mais alta divindade
e chamados, às vezes, de daimones (ver Demônios).
Nos períodos helenístico e imperial tardios,
a filosofia raramente era ateísta; o filósofo
antigo estudava o que chamaríamos de “teologia”
juntamente com física, lógica e outras matérias.
Cícero chegou a se queixar de que os estóicos
eram “lamentável e aflitivamente supersticiosos”
(De Div. 2,86). Muitos filósofos dessas
três escolas do século I a.C. em diante apoiavam
uma versão racionalizada da crença tradicional
nos deuses (ver Religiões). Ainda assim, a filosofia
helenística manteve-se a distância da piedade
popular e censurava os mitos dos deuses,
em especial seu antropomorfismo e sua descrição
pictórica dos deuses em brigas futeis, paixões
humanas e atividades imorais.
Os platônicos médios e os peripatéticos afirmavam
que Deus era completamente transcendente,
uma força divina imaterial, mente ou racionalidade
pura. A vontade de Deus era desempenhada
por deuses menores, a fim de evitar o
contato com a matéria. Seu lugar de residência
ficava além da lua, na esfera da ordem serena,
onde as estrelas se moviam. Entretanto, os estóicos
eram imanentistas em sua visão de Deus.
As três escolas afirmavam que o atributo mais
elevado e mais divino de Deus era a mente
(nous) ou a razão (logos). Por isso, a parte raciocinadora
da alma humana também era considerada
divina, parte ou “semente” de Deus.
1.2. Epicuristas. Embora acreditassem que
os deuses eram “seres abençoados e imortais”, os
epicuristas inclinavam-se a viver como se a religião
fosse irrelevante. Eles explicavam tudo em
termos de forças naturais e acreditavam que tudo
se compunha de “átomos” (Diógenes Laércio,
Vit. 10,38-44). A colisão aleatória dos átomos era
a causa de todo acontecimento natural e o acaso
predominava. Eles também garantiam a validade
do livre-arbítrio em oposição ao fatalismo. A meta
da filosofia era libertar as pessoas de todos os
temores ou confusões, possibilitando que a tranqüilidade
da mente florescesse (ataraxia; Diógenes
Laércio, Vit. 10,82.117.120.131-135).
Os epicuristas ficaram famosos por definir
o prazer como o bem primordial que devia ser
procurado na vida (Diógenes Laércio, Vit.
10,128-129). Embora Epicuro qualificasse isso
ao observar que o excesso (quer de comida, quer
de imoralidade) era incompatível com o verdadeiro
prazer e ataraxia, seus seguidores eram
freqüentemente reprovados por outros filósofos,
que os consideravam efeminados ou devassos.
1.3. Platônicos médios. Platão afirmou que
o elemento racional da alma humana era imortal.
Embora essa razão fosse concedida pelo Deus
que formava o universo (o demiurgo), a formação
do resto da pessoa humana era confiada a
deuses menores que eram eles próprios criações
do demiurgo (Platão, Tim. 40a, 41a-43a). Esses
deuses menores também contribuíam com as
partes mortais da alma — as “paixões irracionais”
e os apetites. No século I d.C., até o demiurgo
era considerado um deus menor, o que
tomava a divindade suprema muito afastada do
mundo material. Isso tendia a levar à depreciação
das coisas materiais como substâncias inferiores
e do corpo em especial como empecilho
para o progresso em direção a Deus. No entanto,
o corpo raramente era considerado de natureza
má (ver Corpo).
O universo do platonismo médio era povoado
por inúmeros seres intermediários que atuavam
como servos do Deus supremo, operavam
também em oráculos e assistiam a sacrifícios e
celebrações de mistério (Plutarco, Def. Orac.
416d-417b; Fac. Lun. 944c-d). A elevação da
pessoa em direção à divindade, com o fim de
libertar a alma de seu ciclo de reencamação e
ligação a um corpo, era feita por meio da procura
da filosofia (Platão, Tim.. 90b-c; cf. Plutarco,
Fac. Lun. 943d; Gen. Soer. 593d-594a). A razão
divina, do mesmo modo que foi implantada nos
seres humanos, também foi posta em tipos diferentes
de “corpos” que se tomaram estrelas ou
semideuses. Assim, na tradição platônica já temos
uma base para desenvolvimentos na religião
astral mais tardia e no gnosticismo (ver Gnose,
gnosticismo).
1.4. Peripatéticos. Os peripatéticos seguiam
Aristóteles (384-322 a.C.), o discípulo de Platão.
Em seu método, Aristóteles era muito mais empírico
e indutivo que Platão. Ele rejeitou a alma
imaterial de Platão, pois acreditava que a alma era
inseparável do corpo, exceto pelo poder do
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pensamento. Embora as obras de Aristóteles
começassem a gozar de uma renovação entre
os filósofos do fim do século I a.C., a escola
peripatética tinha assimilado muita coisa do
platonismo e para o nosso propósito tem pouca
importância.
1.5. Estóicos. O estoicismo caracterizavase
como um materialismo religioso panteísta.
Os adeptos da “doutrina do Pórtico” rejeitavam
a “substância imaterial”; para eles, tudo que era
real era material — inclusive Deus. Deus era
variadamente descrito como “fogo”, “razão”
(logos) ou “espírito” (pneuma). Para os estóicos,
porém, “espírito” era uma substância material,
muito diferente do Espírito Santo judeu-cristão
(ver Espírito Santo). Eles diziam que Deus existe
em tudo, em todo o universo, às vezes como
“espírito”. Ele molda o destino e toda a realidade
segundo a razão divina. Apesar de seu materialismo,
o estoicismo não era ateísmo e expressava
profunda reverência por Deus e sua sabedoria
ao moldar a natureza. E de Aratos, poeta estóico,
que também era seu conterrâneo da Cilicia, que,
segundo consta, Paulo citou em seu discurso no
areópago: “Pois nós somos de sua raça” (At
17,28; ver Atenas). Diversos outros mestres estóicos
vieram de Tarso, a cidade natal paulina,
inclusive Atenodoro, que era íntimo do imperador
Augusto e que, em seus últimos anos, voltou
a Tarso e se tomou seu cidadão mais importante.
Durante um curto período, o estoicismo foi
a principal filosofia do primeiro império, favorita
dos romanos. Embora a “doutrina do Pórtico”
primitiva tivesse uma ampla variedade de
interesses, no século I d.C. parece que a ética dominou
quase por completo o interesse da escola.
A pergunta abrangente era: “Como o sábio pode
viver segundo a natureza?”. A vida segundo a
natureza incluía o pensamento de uma vida vivida
racionalmente, de acordo com a parte racional
divina da natureza humana e aceitando o
destino ditado por Deus (o que, de qualquer modo,
era inevitável). Eles acreditavam que isso
levava a uma vida virtuosa, e a virtude era o
único “bem” absoluto que os adeptos da “doutrina
do Pórtico” reconheciam. Tudo o mais, inclusive
saúde, riqueza, força, beleza, até mesmo a
vida e a morte (ver Vida e morte), era designado
como “indiferente” (adiaphora) porque, diziam,
tais coisas não faziam diferença para a virtude
e a felicidade do sábio. A vida estóica ideal era
uma busca altamente individualista, egocêntrica,
da “virtude”, em total independência de um apoio
extemo. A “doutrina do Pórtico” desenvolveu a
diatribe ética (ver Retórica) que era adotada por
muitos que não se consideravam estóicos — inclusive
Plutarco e Paulo.
1.6. Cínicos. O cinismo foi predecessor do
estoicismo; com freqüência, é considerado mais
um modo de vida que uma filosofia (Diógenes
Laércio, Vit. 6,103), e Malherbe menciona que o
estilo de vida cínico combinava-se com filosofias
bastante díspares em essência. A chave para
o pensamento cínico era uma vida consistente
vivida “segundo a natureza”, o que era interpretado
com o significado de uma independência
de todos os acessórios externos, uma vida somente
com as coisas mais essenciais. O famoso
Diógenes de Sínope (fundador do cinismo) viveu
em um tonel, tendo como bens apenas uma
túnica e uma taça, e acabou por desistir da taça.
O cínico era conhecido pela túnica rasgada
e por mendigar (embora se dissesse que alguns
trabalhavam). Tipicamente, rejeitavam normas
sociais e se orgulhavam de sua “impudência”,
embora se considerassem reformadores morais.
O ideal cínico de “ousadia” (parrêsia) no discurso
manifestava-se na pregação pública, que
com freqüência era cáustica, abusiva e arrogante
ao expor os “pecados” da platéia. Eles comparavam
seus modos à cirurgia em um paciente
com gangrena. Parece que nunca se interessaram
pelo pensamento especulativo e limitavam
a atenção em geral à ética. De todas as escolas,
os cínicos eram os mais dispostos a trabalhar
com gente comum.
1.7. Fílon de Alexandria. Fílon (c. 30 a.C.-
45 d.C.) era um erudito judeu que escreveu
extensamente a respeito do Pentateuco, usando
o método alegórico para fazer os textos apresentarem
lições de filosofia e ética. Suas obras mostram
um conhecimento perfeito da literatura, da
filosofia e da retórica clássicas. Em sua perspectiva
filosófica, ele era primordialmente um
platônico médio (cf. Fílon, Op. Mund.; Migr.
Abr. 2,9; 11,62), embora fortemente influenciado
pelo estoicismo em sua ética (cf. Fílon, Omn.
Prob. Lib.;Migr. Abr. 22,127-128; 36,197; Abr.
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I,5-6) e em sua percepção dos conceitos estóicos
do logos de Deus e do “espírito” (pneuma)
do mundo. Os dois últimos conceitos foram
reformulados em Fílon sob a influência de seu
judaísmo, de modo a se tomarem muito mais
pessoais do que eram no estoicismo.
Embora a filosofia de Fílon fosse bastante
grega, ele permaneceu leal ao judaísmo, defendendo
o monoteísmo e a inspiração divina da
lei* judaica. Ele ainda considerava o sentido literal
da lei um companheiro necessário de seu
sentido alegórico e a obediência à lei necessária
para seguir o caminho da perfeição espiritual
(.Migr.Abr. 16,93; 25,457-26,458). Como Paulo,
Fílon considerava Abraão* (juntamente com Isaac
e Jacó) modelo importante para a pessoa virtuosa,
de certo modo superior à lei. Ele dizia que
Abraão alcançara uma vida perfeita “segundo a
natureza”; os patriarcas eram “leis vivas”, enquanto
o código mosaico era apenas um registro
do estilo de vida dos patriarcas (Abr. 1,5-66;
II,52; 46,276; Migr. Abr. 22,127-23,131). E
Abraão não representava simplesmente uma pessoa
histórica, mas sim a viagem de toda alma
que busca a Deus (Abr. 14,66; 15,68; Migr. Abr.
1,2). Para Fílon, a vida virtuosa era uma viagem
da alma que terminava em uma comunhão mais
estreita com os “poderes” divinos intermediários
de Deus no mundo; talvez alguém diga
que Fílon acreditava em uma união mística com
Deus (ver Misticismo). Ele com certeza acreditava
em profecia* e em possessão divina extática
(ver Visões, experiência extática; Migr.
Abr. 7,34-35).
2. Paulo e a filosofia helenística
2.1. Observações gerais. Por esse exame, vemos
que Paulo tem muitas coisas em comum com os
filósofos e também muitas diferenças. Quase
todos que pensaram seriamente no assunto afirmaram
que Deus é um ser moral cujas ações
são justificáveis, embora nem sempre saibamos
explicá-las. Paulo tem em comum com os platônicos
o entendimento de Deus como ser imaterial,
mas ele não acha que Deus está distante
do mundo material. Paulo imagina Deus envolvido
em sua criação*, onde ele se revela, chama
as pessoas ao arrependimento e à fé em seu Filho
Jesus Cristo* e salva. O fundamento para tudo
isso está na vida e morte de Cristo*, e nisso se
baseiam as relações contínuas de Deus com a
humanidade por meio da pregação* e do Espírito
Santo* (e.g., lTs 1,4-6.9-10; G11,3-4; ICor
1,18-25.30; 2Cor 5,17-21; Ef 1,3-14). A esse
respeito, Paulo tem semelhança extrínseca com
a visão estóica de que Deus é imanente, embora
Paulo jamais identifique Deus com a natureza
ou o universo, como faziam os adeptos da “doutrina
do Pórtico”. Assim, Paulo diz: “tudo é dele,
e por ele, e para ele” — frase que soa bastante
estóica (Rm 11,36; cf. Cl 1,16). Contudo, Deus
permanece transcendente sobre o mundo que
criou (ICor 8,6; Cl 1,15-19; Ef 4,6). Para os
filósofos helenísticos, a divindade suprema era
um artífice ou formador do universo, mas não
criava do nada (ver Mundo, cosmologia); a
matéria era coetema com ele (ou, no caso dos
estóicos, a natureza era de extensão igual à dele).
À luz dessa visão da matéria, é interessante que
para Paulo Jesus não só é instrumento de Deus
na criação, mas também precede o universo físico:
“ele existe antes de tudo” (Cl 1,17).
Uma grande diferença entre Paulo e os filósofos
seus contemporâneos é a abordagem destes
ao conhecimento* de Deus. Enquanto a filosofia
afirmava que raciocinar a partir de certos
princípios fundamentais era a maneira apropriada
de obter o conhecimento de Deus e do mundo,
para Paulo esse conhecimento só pode ser
recebido como revelação de Deus, intermediada
pelo Espírito e proclamada na pregação (ICor
1,17-18; 2,6-16). Não obtemos a “sabedoria”*
deste mundo. Em parte é porque essa razão está
toda manchada pelo pecado, mas Paulo explica
que dessa maneira a humanidade toda tem necessidade
da graça* de Deus, pois fica completamente
privada de quaisquer meios para exaltar
a si mesma (ICor 1,19-25).
A única passagem em Paulo (e no NT) em
que ocorre a palavra filosofia é em Colossenses
2,8: “Vigiais para que ninguém vos apanhe no
laço da filosofia, esse vão embuste fundado na
tradição dos homens, nos elementos do mundo,
e não mais em Cristo”. O alvo de Paulo aqui não
são as filosofias “comuns”, mas sim a mistura
especulativa de idéias do judaísmo, da religião
helenística e da filosofia aparentemente em voga
em Colossas (ver Colossenses). Paulo responde
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com uma afirmação da tradição “em Cristo”
(kata Christon)— isto é, é uma tradição a respeito
de Cristo e também condiz com sua pessoa.
O encontro mais conhecido de Paulo com a
filosofia está relatado em Atos 17,16-34. Ali,
Lucas descreve Paulo na ágora ateniense, onde
ele atrai a atenção de alguns epicuristas e estóicos.
O relato lucano repete a rejeição de Sócrates
pelos atenienses: como Sócrates, Paulo fala a
todos na ágora; é acusado de apresentar “novos
deuses” (kaina daimonia; cf. Platão Apol. 24bc)
e é rejeitado por muitos (ver Atenas). Paulo
constrói a primeira parte de sua mensagem em
tomo da existência de um só Deus que criou o
mundo, que não habita templos* nem ídolos (At
17,24-27.9; ver Idolatria). Este Deus é a fonte
da vida humana e faz todos serem de uma só
família (At 17,26.28-29). Sabemos que sentimentos
semelhantes existiram na filosofia grega,
de modo que não há nada exclusivamente cristão
na primeira metade. Contudo, isso também não
é anticristão; estabelece um ponto de contato
entre os filósofos e Paulo, que chega a citar dois
versos da poesia grega em seu apoio (At 17,28):
“Pois é nele que nós temos a vida, o movimento
e o ser” (Epimênides) e “pois nós somos de sua
raça” (do estóico Aratos, Fen. 5).
Quase no fim do discurso, são introduzidos
os temas do perdão* e do arrependimento
(At 17,30) que impõem um dia de juízo* o qual
será presidido por Jesus (At 17,31), que não é
mencionado aqui, mas é citado como “homem
que [Deus] designou”, conforme a prova que
é sua ressurreição* dos mortos (At 17,31). Se
considerado à parte de sua função literária nos
Atos, o discurso é um bom exemplo da pregação
cristã primitiva adaptada a uma platéia pagã
helenística.
Muitos estudiosos afirmam que Atos 17 é
incompatível com o Paulo que escreveu Romanos
1-3, com a exclusão da teologia natural.
Mas em Atos 17 não há nada que pressuponha
um conhecimento salvífico de Deus, e, de qualquer
modo, as duas platéias (cristãos romanos e
pagãos atenienses) requerem um discurso um
tanto diferente. Precisamos supor que, ao falar
com gentios*, Paulo adotaria um ponto de partida
diferente do AT e que o discurso de Atos 17
junta diversos temas paulinos comuns, até mesmo
os elementos apocalípticos simbólicos da ressurreição
e do julgamento futuro associados a Jesus
(cf. lTs 1,9-10; ver Stonehouse).
2.2. Paulo e o platonismo. A. idéia de que as
coisas só entendidas pela inteligência são mais
divinas que as abertas ao exame sensorial era
uma noção platônica que se tomou traísmo no
período helenístico. Assim, Paulo declara: “O
nosso objetivo não é o que se vê, mas o que não
se vê” (2Cor 4,18; também 2Cor 5,7; Cl 1,5);
embora semelhante, a idéia de invisibilidade em
1 Timóteo 1,17 e 6,16 origina-se de tradições
veterotestamentárias (e.g., Ex 20,4; 33,20). Do
mesmo modo, o conceito de um arquétipo ou
“Idéia” celeste na qual são modelados pormenores
terrestres origina-se do universo platônico. É
empregado por Fílon (e.g., Leg. Ali. 1,31) e influencia
a “alegoria” de Gálatas 4,24-26, embora
qualquer influência platônica em Paulo ali tenha,
sem dúvida, sido intermediada pelo judaísmo
(cf. ICor 15,48-49; F13,21). O “homem interior”
(ver Psicologia) de 2 Coríntios 4,16 tem
um paralelo formal na República de Platão (IX
589A), mas para Platão isso é uma força de vontade
racional, enquanto o conceito de Paulo é
mais amplo que a simples racionalidade e inclui
uma esperança escatológica de existência de ressurreição
em sua totalidade (ver Escatologia).
2.3. Influência estóica nas cartas. As numerosas
semelhanças entre a linguagem paulina e
a linguagem e o pensamento estóicos, em especial
os de Sêneca, foram notadas há muito tempo
(e.g., Rm 1,19-20.26; 11,36; 12,1; ICor 3,2123;
6,12; 7,31; 9,1.19; 12,12-27; Cl 1,16; Ef
4,6; 5,22-6,9). Sevenster e outros demonstraram
que no segundo caso muitas das semelhanças
são apenas formais e que abaixo da linguagem
estão conceitos diferentes de Deus, da humanidade
e do relacionamento entre os dois. Há
quem considere as semelhanças coincidência
proveniente do emprego de uma língua comum,
mas é bem possível que Paulo tenha reelaborado
conscientemente conceitos estóicos populares à
luz da teologia cristã. Assim, autarkeia, “autosuficiência”
(2Cor 9,8), e autarkês, “auto-suficiente”
(F14,11), são empregados como termos
técnicos em dogmas cínicos e estóicos para
expressar o contentamento do sábio com “uma
vida segundo a natureza” que é alcançada com
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um longo treinamento e a separação de qualquer
dependência da sociedade humana ou de bens
materiais. Desse modo, ao conseguir a independência,
o sábio estóico toma-se uma figura heróica
que se eleva até mesmo acima dos deuses.
Mas Paulo apresenta ao cristão uma autarkeia
que é, de modo paradoxal, uma existência dependente
que flui da graça de Deus. Em sua
renúncia à necessidade de riqueza material,
parece-se com a independência cínica ou estóica,
mas internamente é bem diferente. Tira sua força
não da resolução da vontade, mas da certeza da
generosidade e da presença de Deus. E não é
egoísta e sim um “contentamento” que permite
à pessoa ser útil para os outros.
A passagem de 1 Timóteo 6,6-8.12 soa
mais estóica ao se concentrar na renúncia e no
tema do “combate”, embora mesmo esses sejam
cristianizados para ser ligados à piedade
(lTm 6,6.11) e à fé (lTm 6,11.12) — palavra
feia para um filósofo. Outro caso é a “teologia
natural” de Romanos 1,19-20. Os adeptos da
“doutrina do Pórtico” desenvolveram bastante
o tema do conhecimento da existência de Deus
pela observação de uma ordem racional e útil
no universo. Entretanto, a influência estóica
aqui é provavelmente intermediada por uma
fonte sapiencial judaica, como vemos pelo emprego
paulino de “cólera” (Rm 1,18; ver Cólera,
destruição), “o que se pode conhecer de
Deus” (Rm 1,19, que subentende também uma
essência incognoscível) e “desde a criação do
mundo” (Rm 1,20). A prática paulina de usar
deliberadamente temas estóicos de modo redefinido
é tentativa cristã primitiva de comunicação
intercultural, ainda mais significativa quando
o estoicismo ou uma influência estóica operam
nas Igrejas gentias.
2.4. Paulo e a exortação moral cínica. A.
Malherbe demonstrou diversos paralelos temáticos
e verbais entre passagens das cartas paulinas
e o ideal do filósofo cínico “moderado” conforme
idealizado principalmente por Díon Crisóstomo.
Muito notável é a descrição de seu
ministério* em 1 Tessalonicenses 2. O filósofo
insultado pela multidão, mas que fala “com segurança”,
“sem se fundamentar no erro”, com
“pureza de coração” (cf. lTs 2,3), e ataca os
charlatães que enganam os ouvintes inspirados
“em motivos impuros” (cf. lTs 2,3.5), foi idealizado
por Díon e outros. Até o tema da ternura
na correção era conhecido de alguns dos cínicos
mais moderados (cf. lTs 2,6-8). Mais uma vez,
como nos paralelos estóicos, Paulo usa o material
disponível, mas em uma estrutura reorientada.
Sua segurança não se devia a autoconfiança
e independência, mas a sua compreensão do chamado
de Deus — dependência que poderia muito
bem causar aversão a um cínico. O conteúdo
de sua pregação é o Evangelho, não a lei natural
ou o ascetismo para o bem do ascetismo.
2.5. Paulo e Fílon. Em sua maioria, os estudiosos
acreditam que Paulo não foi influenciado
diretamente por Fílon, embora haja algumas
semelhanças que se explicam pela referência a
uma tradição sapiencial judaica comum, mais
antiga que ambos. Isso explicaria o sentido simbólico
da circuncisão (Fílon, Migr. Abr. 16,92)
ou que a humanidade e o mundo são “loucos”
em comparação com o entendimento e o propósito
de Deus (Migr. Abr. 24,134-138; cf. ICor
1,18-29). Recentemente, houve quem propusesse
que os coríntios tinham recorrido a Fílon ou a
uma percepção fundamentada em Fílon da perfeição
espiritual por meio do uso filosófico da
lei (1 Coríntios; e.g., R. Horsley, J. Davis), ou
para o entendimento de Moisés como homem
glorioso, carismático, cheio do Espírito (2Cor;
cf. Fílon, Vit. Mos. 2,69-70; Martin, 63-64). Isso
é altamente improvável para a situação em 1
Coríntios, na qual os problemas dos convertidos,
em sua maioria gentios, não têm base demonstrativamente
judaica. Entretanto, pode ter havido
alguns conceitos fundamentados em Fílon
trazidos à Igreja pelos intrusos judeu-cristãos,
quando 2 Coríntios estava sendo redigida.
2.6. Sumário. Embora possa usar vocabulário
filosófico para seus propósitos apologéticos
ou didatas, Paulo não é constrangido pelo
conteúdo ou pelo método das filosofias em voga.
Como homem de seu tempo, está a par das
correntes intelectuais, mas não se preocupa, como
Fílon, em reconciliar sua mensagem com a
filosofia. Paulo afirma ser o Evangelho o único
meio de chegar à sabedoria divina (ICor 1,21;
2,6-16; cf. Ef 1,15-18).
Ver também H e le n is m o ; M i s t é r i o ; R e l i g i õ e s
GRECO-ROMANAS; SABEDORIA.
FILOSOFIA
FORTE E FRACO
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T. P a ig e

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