DONS DO ESPÍRITO - TEOLOGIA PAULINA

 

Dons do Espírito

DONS DO ESPÍRITO
A expressão “dons (ou dom) do Espírito” não
ocorre no corpus paulino. Contudo, a colocação
ocasional de linguagem de “dons” e atividade
do Espírito (ver Espírito Santo), principalmente
em Romanos 1,11 e 1 Coríntios 12-14, toma a
expressão legítima. Os problemas são três: 1)
determinar o que o próprio Paulo pode ter entendido
pelas palavras charismata e pneumatika,
pois o uso que faz delas exibe um grau considerável
de fluidez; 2) isolar as atividades do Espírito
que possam ser legitimamente classificadas
como “dons do Espírito”, já que os textos em si
não são nem sistemáticos nem completos; e 3)
identificar a natureza dos diversos “dons” mencionados.
Parte do problema é determinar se
“dons do Espírito” deve ser limitado aos fenômenos
mais extraordinários de 1 Coríntios 1214
ou se devemos também incluir os “ministérios”
em Efésios 4,11 que são chamados “dons”,
mas não charismata, e não estão diretamente
associados ao Espírito.
1. Os dados lingüísticos
2. Os textos
3. Charismata
1. Os dados lingüísticos
Na maioria das interpretações e escritos contemporâneos
a respeito desse assunto, em especial
na literatura popular, a expressão “dom do Espírito”
está associada ao uso paulino da palavra
carisma-, daí o freqüente uso contemporâneo de
carismático para descrever pessoas ou Igrejas
que experimentam os fenômenos de 1 Coríntios
12-14. Isso não está inteiramente errado, mas é
enganoso. Paulo qualificar charisma (dom) com
o adjetivo pneumatikon (“espiritual”), ou seja,
relativo ao Espírito, em Romanos 1,11 é indício
certo de que charisma não significa automaticamente
“dom espiritual”. Além disso, há boa razão
exegética para crer que o “charisma de Deus”,
que Timóteo é exortado a “reavivar” em 2 Timóteo
1,6 não é outro senão o próprio Espírito (ver
Fee, 1993). Tudo isso fica ainda mais complicado
com as diversas listas de “dons” nas cartas
paulinas e com a variedade de vocabulário usado
para designá-los.
Assim, por exemplo: 1) em 1 Coríntios 12,4,
Paulo fala dos charismata do Espírito que em
1 Coríntios 12,7 são chamados “manifestações”,
enquanto charismata aparece novamente em
1 Coríntios 12,9 (e em ICor 12,28.29) estritamente
confinado a “cura”*, para reaparecer em
1 Coríntios 12,31 com referência a categorias
mais amplas; 2) em 1 Coríntios 12,6, as atividades
de Deus* são chamadas energêmata (“modos
de ação”) que ele energei (“realiza”), contudo
energêmata volta a ocorrer em 1 Coríntios
12.10 como uma das manifestações do Espírito,
e 1 Coríntios 12,11 diz que o Espírito energein
tudo isso; 3) em 1 Coríntios 12,5, as atividades
associadas ao Senhor são chamadas diakonai
(“ministérios”), palavra que aparece novamente
como um charisma em Romanos 12,6-7, mas
em um contexto em que o Espírito não é mencionado;
4) “operar milagres” em 1 Coríntios
12.10 é simplesmente “milagres” em 1 Coríntios
12,28-29; 5) encontramos o logos de “conhecimento”
em 1 Coríntios 12,8, “o saber de
todos os mistérios* e de todo conhecimento”
em 1 Coríntios 13,2 e simplesmente “conhecimento”
em 1 Coríntios 13,8 e 1 Coríntios 14,6;
6) “profecia”* está relacionada em 1 Coríntios
12,10; os próprios profetas são mencionados
em 1 Coríntios 12,28-29 (cf. ICor 14,29.37);
mas não está de todo claro que “profecia” é o
campo particular só de alguns que são chamados
“profetas” (cf. “homens encarregados do
ensino” e “ensinamento” em ICor 12,28 e ICor
14,6.26). E justo dizer que a literatura erudita e
a popular expressam muito mais confiança em
alguns desses assuntos do que a prova em si
justifica. Contudo, como ponto inicial, precisamos
pelo menos examinar a maneira como
Paulo usa algumas palavras-chave.
1.1. Charisma(ta). A palavra charisma é distintamente
paulina (só encontrada em outra passagem
do NT em 1 Pd 4,10 e, por outro lado, raramente
na literatura grega em geral). Sozinha, a
palavra nada tem a ver com o Espírito; adquire
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implicações do Espirito somente em virtude do
contexto ou de qualificadores evidentes. O substantivo
formou-se de charis (“graça”*) com
referência a uma expressão concreta de graça
que é o que significa em todas as suas ocorrências
em Paulo. Assim, em quase metade de seus
usos, charisma designa uma variedade de maneiras
pelas quais a graça de Deus se manifesta
entre seu povo. Inclui “dons” tão diversos como
a vida* eterna (Rm 6,23; cf. Rm 5,15.16), os
privilégios especiais concedidos a Israel* (Rm
11,29, com referência a Rm 9,4-5), o celibato e
o casamento* (ICor 7,7) e a libertação de um
perigo mortal (2Cor 1,11).
Por outro lado, a palavra às vezes refere-se
a determinadas atividades do Espírito, como
“dons espirituais”, por exemplo em Romanos
1,11, que mencionamos acima (Fung considera
esse um sentido “técnico”, mas sem justificação).
Assim, em 1 Coríntios 1,4-7, a graça de
Deus (ICor 1,4) encontra expressão concreta no
abundante número de charismata com que ele
cumulou essa comunidade (ICor 1,5.7). Esse
mesmo uso é assimilado em 1 Coríntios 12
(ICor 12,4.9.28.30.31), com referência específica
ao Espírito. Mas também é aqui que começam
as dificuldades. Em três desses versículos
(ICor 12,9.28.30), Paulo usa a frase “charismata
(‘dons’) de cura”, evidentemente referindo-se a
casos específicos de cura física na comunidade.
Mas em 1 Coríntios 12,4, no início dessa discussão,
charismata está associada ao Espírito de
uma forma que parece ter a finalidade de incluir
0 que em 1 Coríntios 12,7 Paulo denomina “manifestações
do Espírito”. Assim, parece não haver
dúvida de que a lista de manifestações em
1 Coríntios 12,8-10 deve ser entendida como
charismata, concessões graciosas do Espírito na
comunidade reunida com o propósito de formar
o povo de Deus (ver Igreja).
Mais difícil é a repetição dessa palavra acompanhada
do imperativo no final dessa discussão,
em 1 Coríntios 12,31, na qual Paulo os exorta:
“Ambicionai os charismata melhores”. Por diversas
razões exegéticas (ver Fee, 1987), esse
imperativo quase certamente não se refere à
miscelânea precedente de pessoas, ministérios
e manifestações do Espírito “que Deus dispôs
na Igreja” (ICor 12,28). Antes, com toda a
probabilidade, tem o propósito de iniciar o argumento
a respeito da inteligibilidade e da ordem
em 1 Coríntios 14, que é, então interrompido
para pôr todas essas,coisas no contexto
do amor*. Quando Paulo retoma esse imperativo
em 1 Coríntios 14,1, a palavra charismata é
substituída por ta pneumatika (“manifestações
espirituais”), que tem a ver, como em 1 Coríntios
12,4-11, com manifestações do Espírito na
comunidade reunida para a adoração*. Portanto,
é duvidoso se em 1 Coríntios 12-14 Paulo
pretende se referir a pessoas, como apóstolos*
e mestres, ou a ministérios, como o da assistência
e o da direção, chamando-os de charismata.
Pelo menos em suas únicas aparições específicas
nesse argumento, o termo parece restringirse
a manifestações do Espírito na comunidade
e, por isso, é provável que signifique algo como
“expressões concretas de graça manifestadas
por meio dos poderes dados pelo Espírito”.
O uso em Romanos 12,6 é mais difícil.
Aqui, Paulo fala que temos “charismata que diferem
segundo a charis que nos foi concedida”,
onde a óbvia ligação de charismata com “graça”
está mais uma vez evidente, mas o Espírito não
é mencionado. Na verdade, várias coisas subentendem
a presença do Espírito: a linguagem a
respeito da unidade e diversidade no corpo (ver
Corpo de Cristo), que reflete 1 Coríntios 12; a
profecia como o primeiro charisma mencionado
no versículo 6, que em Paulo é um dom do Espírito
por excelência; e as semelhanças de Romanos
12-14 com Gálatas 5-6, onde o Espírito
domina a análise.
Mesmo assim, apesar dessas associações
com o Espírito originadas dos contextos maiores
de Romanos*, 1 Coríntios* e Gálatas*, não está
claro de modo algum se Paulo pretendia que a
lista de Romanos 12,6-8 fosse considerada
“dons do Espírito” da mesma maneira que os
charismata de 1 Coríntios 12-14. Essa lista é tão
heterogênea e abrange uma série tão ampla de
atividades, que é mais provável a ênfase estar
na “graça de Deus”, aqui sendo realizada entre
os fiéis romanos de forma concreta (esp. à luz de
Rm 14—15), em vez de no poder dado pelo Espírito
para tal comportamento. Portanto, a lista
inclui dois itens de 1 Coríntios (profecia, ensinar),
mais outro charisma (aparentemente) verbal
DONS DO ESPÍRITO
DONS DO ESPÍRITO
(exortar/encorajar) e também várias formas de
servir aos outros na comunidade de fiéis (serviço,
dar e exercer a misericórdia). Esses últimos
itens em particular parecem mudar da
idéia de “dons” por si só, pelo menos em termos
de manifestações do Espírito, para o comportamento
cristão (ética*), no qual o fruto
do amor encontra expressão concreta em seu
meio. Assim, incluí-los como “dons do Espírito”
do mesmo tipo e categoria que em 1 Coríntios
12-14 parece misturar coisas diferentes.
Para Paulo, eles são claramente charismata;
está menos claro se ele os considerava também
dons do Espírito.
Finalmente, 1 Timóteo 4,14 e 2 Timóteo 1,6
afirmam que o charisma está “em Timóteo” e
expressam esse charisma em contextos que se
referem ao ministério de Timóteo. No primeiro
caso, é provável que se refira a seu “dom” para
o ministério que lhe foi conferido por uma intervenção
profética. Em 2 Timóteo 1,6, entretanto,
parece mais provável que o charisma se refira ao
próprio Espírito (Fee, 1993), embora isso, por
sua vez, seja metonímia para o ministério que o
Espírito concedeu a Timóteo e que lhe foi conferido
“por uma intervenção profética”.
Em suma, charisma não se refere necessariamente
à atividade do Espírito; onde se refere,
parece ser à modos visíveis específicos nos
quais o Espírito se manifesta na comunidade
de fiéis, fazendo-lhes “concessões graciosas”
para satisfazer suas várias necessidades e, desse
modo, formá-los como o povo escatológico de
Deus. Por isso, é provável que tenhamos de
fazer uma distinção entre “charismata do Espírito”
e outras expressões de charismata que
não subentendem necessariamente atividade visivelmente
evidente do Espírito como tal.
1.2. Pneumatika. Esta palavra (plural neutro
do adjetivo pneumatikon; assim, literalmente,
“as manifestações do Espírito”) ocorre duas vezes
em 1 Corintios 12-14 (ICor 12,1; 14,1). A
aparente sobreposição de pneumatika e charismata
em 1 Corintios 14,1 (e ICor 12,31) já foi
mencionada. Tem havido considerável debate a
respeito dessa alternação aparente. Há quem sugira
que as palavras são quase permutáveis e
que, nesse contexto, as duas significam mais
ou menos a mesma coisa; outros sugerem que
uma delas é a palavra mais abrangente e a outra
serve para designar manifestações específicas
do Espírito; e ainda outros acham que uma ou
outra pode ser palavra coríntia, relacionada ao
entusiasmo aparentemente desenfreado que eles
tinham por línguas*, que Paulo tenta aqui frear,
em parte, de uma forma lingüística (ver essa
discussão em Fee, 1987).
Como parece não haver dúvida de que as
duas palavras têm um grau de sobreposição neste
contexto específico, a melhor solução para o
problema deve estar em levar a sério o sentido
da raiz das duas palavras. Se a ênfase da palavra
charisma está na bondade de Deus para com seu
povo, então a ênfase em pneumatika está na
natureza da atividade do Espírito da qual esses
vários charismata dão testemunho. Desse modo,
Paulo se referia aos mesmos fenômenos. Na
verdade, são charismata diversos do Espírito
único; eis como Deus opera atualmente entre
seu povo, de várias maneiras para o bem comum.
Mas no argumento de 1 Corintios 14 a
ênfase está nos charismata como manifestações
do Espírito. Eis como o Espírito age neles
individualmente (línguas em particular para
edificação; ICor 14,2-3.14-15) e juntos (profecia
etc.) para a edificação comum.
É provavelmente assim também que devemos
entender o genitivo ambíguo com o qual
todo este argumento começa em 1 Corintios 12,1
(“a respeito das tõnpneumatikõn”). Há um debate
considerável quanto a se isso significa “dons
espirituais” (neutro) ou “povo espiritual” (masculino).
É muito provável que o termo seja neutro
(como em ICor 14,1), mas sem significar
“dons espirituais” como tais, o que é um entendimento
estrito demais dessa palavra, e sim “questões
espirituais”, que inclui “dons” e seu abuso
pelos “pneumáticos” dessa comunidade.
1.3. Pneumata. É mais difícil determinar o
que Paulo queria dizer com três ocorrências do
plural pneumata (espíritos) em 1 Corintios 1214:
“o discernimento de espíritos” (ICor 12,10),
“procurai ser inspirados, e o mais possível já que
isso vos atrai” (ICor 14,12) e “os espíritos dos
profetas são submissos aos profetas” (ICor
14,32). O emprego em 1 Corintios 14,12 é tão incomum
que muitos tradutores acham que significa
o mesmo que pneumatika em 1 Corintios 14,1;
DONS DO ESPIRITO
DONS DO ESPÍRITO
e por isso traduzem “dons espirituais” (BMD;
CNBB). Que o próprio Paulo acreditava em uma
pluralidade de “bons espíritos” é enfaticamente
negado por 1 Corintios 12,4.8-11: “o Espírito é
o mesmo”, “conforme o mesmo Espírito”, “o
único e mesmo Espírito”. É discutível se essa
ênfase também combate a crença na pluralidade
de espíritos por parte dos corintios. Essa estranha
afirmação de 1 Corintios 14,12 pelo menos dá
margem a isso; mas o uso que Paulo faz dessa
linguagem em 1 Corintios 14,32, onde esse sentido
não parece possível, sugere que o significado
é outro.
A provável solução dessas passagens encontra-
se na aparente convicção de Paulo de
que o espírito do fiel é o lugar onde, por meio
do Espírito de Deus, o humano e o divino se
unem na vida do fiel (ver Psicologia). Assim,
a chave para esse uso está provavelmente no
contexto de 1 Corintios 24,32, onde “os pneumata
dos profetas” refere-se muito provavelmente
ao “Espírito profético” pelo qual cada
um deles fala por intermédio de seu espírito;
desse modo, a afirmação profética, inspirada
pelo Espírito divino, é submissa ao profeta e
deve ser “discernida” por outros membros da
comunidade. Talvez a tradução deselegante: “os
E/espíritos dos profetas” seja a que melhor
apreenda a intenção de Paulo. Em todo caso, o
termo refere-se a “dons espirituais” somente
da maneira mais indireta possível.
1.4. Dorea. Esta palavra, o termo para
“dom” propriamente dito, raramente ocorre em
Paulo, mas aparece em Efésios 4,7. Esta sentença
serve de transição da base trinitária para
a unidade em Efésios 4,4-6 (um só corpo, uma
só esperança; um só Senhor, uma só fé, um só
batismo, um só Deus) para os diversos ministérios
que Deus concedeu à Igreja para sua saúde
e seu serviço para o mundo. Como o Espírito
é essencial para a unidade da Igreja (Ef 4,3-4)
e como três dos ministérios relacionados em
Efésios 4,11 também apareceram na relação
de 1 Corintios 12,28, é comum achar que Efésios
4,11 nos dá mais uma lista de “dons do
Espírito”, desta vez mais especificamente restritos
aos ministérios como tais.
Embora haja razões para crer que Paulo
achava que todas essas pessoas e seus ministérios
receberam o poder do Espírito para a tarefa
de formar a comunidade, ainda não está claro
se, ao considerá-los “dons” para a Igreja, ele
também considerou todos esses ministérios
charismata no sentido em que a palavra é usada
em 1 Corintios 12 ou Romanos 12.
2. Os textos
A dificuldade para “organizar” Paulo na questão
dos dons espirituais está não só nos fatores
lingüísticos acima mencionados, mas também
(especialmente) na natureza puramente
ad hoc de suas cartas, que revelam considerável
ambigüidade de linguagem e listagens.
Por essa razão, em vez de sobrepor uma grade
externa ao assunto de que Paulo tratava, devemos
começar com um exame dos textos em
seus contextos.
2.1.1 Corintios 12-14. A natureza retórica
(ver Retórica), às vezes polêmica, do argumento
dessa passagem, em especial nos capítulos 13 e
14, sugere que o propósito de Paulo é primordialmente
corretivo, não instrutivo. Línguas é
obviamente o culpado (como ICor 14 deixa claro);
a questão é, com toda a probabilidade, a
verdadeira espiritualidade* (no sentido de ser
uma pessoa do Espírito), e Paulo e os corintios
estão em desacordo sobre esse assunto (ICor
14,36-37). É provável que estes últimos considerassem
línguas a linguagem dos anjos* (ICor
13,1) e, por isso, prova para uma percepção atual
da existência celestial, só restando a perda do
corpo (daí sua negação da ressurreição* corporal
futura, ICor 15,12). O resultado era o zelo excessivo
por línguas e a conseqüente desordem
em sua assembléia (ver Culto, adoração).
Em seu esforço para refrear o zelo mal
orientado deles, Paulo primeiro defende ser necessário
haver diversidade— para a comunidade
ser verdadeiramente “do Espírito” (ICor 12,430).
Em seguida, ele afirma que todo dom vale
nada se o amor não o motivar (ICor 13,1-13) e
conclui que, em termos de manifestações do Espírito,
o amor exige que eles busquem expressões
inteligíveis (ICor 14,1-25) e a ordem (ICor
14,26-40), para a comunidade ser edificada (ICor
14,1-19.26-33) e os que dela não fazem parte
serem convertidos (ICor 14,20-25). Nesse processo,
Paulo tem oportunidade de relacionar váDONS
DO ESPÍRITO
DONS DO ESPÍRITO
rios charismata, ministérios e formas de serviço
em sete pontos diferentes de seu argumento
(ICor 12,8-10.28.29-30; 13,1-3.8; 14,6.26), e
nenhum é igual ao outro (nem mesmo ICor
12,28 e 29-30); além disso, aparecem de modos
que tomam a sistematização quase impossível.
2.1.1. 1 Coríntios 12,8-10. O caráter puramente
ad hoc desta lista é demonstrado por
sua ordem e seu conteúdo. A preocupação de
Paulo não é com a instrução a respeito de “dons
espirituais” como tais, seu número e seus tipos;
mais exatamente, ele apresenta uma lista considerável
e multiforme, a fim de que eles deixem
de ser únicos em sua ênfase. Assim, adaptada
para tratar da situação deles, esta lista é
apenas representativa da diversidade das manifestações
do Espírito.
As tentativas de classificar os diversos itens
são diversas e variadas. Houve quem sugerisse
que eles refletem im a ordem descendente de
valor, enquanto outros reorganizaram os itens
conceitualmente (MacGorman). Eis um agrupamento
popular: 1) dons de instrução (sabedoria*
e conhecimento*); 2) dons de poder sobrenatural
(fé*, cura*, milagres); e 3) dons de expressão
inspirada (profecia, discernimento de espíritos,
línguas*, interpretação de línguas) (Martin).
É bom mencionar que o sétimo item (“discernimento
de espíritos”) é o que tende a dar
mais trabalho na maioria desses arranjos. Se
agrupá-los é admissível, há provavelmente algumas
indicações dadas pelo próprio Paulo ao começar
o terceiro e o oitavo item (fé e línguas)
com uma palavra diferente para “outro” e sem
o conectivo de. Nesse caso, os dois primeiros
são escolhidos com propósitos ad hoc muito
específicos; “sabedoria” e “conhecimento” gozavam
de alto conceito em Corinto. Em seguida,
ele acrescenta uma lista aleatória de cinco itens
que têm como denominador comum uma dotação
sobrenatural de algum tipo e conclui com a
“criança problema” e sua companheira, línguas
e interpretação.
O que diferencia essa listagem é a natureza
concretamente visível desses itens, em especial
dos sete últimos. Afinal de contas, eles não são
só “dons”, são manifestações da presença do
Espírito no meio deles, escolhidos provavelmente
porque são, como o próprio dom de línguas,
fenômenos extraordinários. De nada adiantaria,
a esta altura, Paulo procurar ampliar as perspectivas
deles relacionando dons menos visíveis.
Isso acontecerá com o tempo (em especial,
por meio da analogia do corpo e nas listas em
ICor 12,28-30); mas, por enquanto, a ênfase
está no sobrenatural.
Por outro lado, a lista também inclui a mensagem
(logos) de sabedoria (sophia) e o logos
do conhecimento (gnõsis). Neste caso, a linguagem
parece ser escolhida não porque Paulo
tem em mente algum dom sobrenatural, mas
porque essas três palavras (logos, sophia, gnõsis)
têm importância especial no entendimento que
os coríntios têm da atividade do Espírito (ver
ICor 1-3; 8). Mas Paulo descreve a sabedoria
e o conhecimento deles como mundanos e imperfeitos.
Para Paulo, essas palavras devem ser
entendidas principalmente em termos da cruz
(1 Cor 1,18-31; 8,11). Assim, para começar sua
lista de “manifestações” na assembléia, Paulo
usa dois dos termos deles que demonstram a
grande diversidade inerente às atividades do
Espírito único. Ao mesmo tempo, ele reformula
esses termos à luz da obra do Espírito, de modo
a lhes dar um conteúdo significativamente diferente
daquele dado pelos coríntios — embora
não seja, em absoluto, certo que forma concreta
eles assumiram na mente de Paulo.
O outro item enigmático nesta lista é “discernimentos
de espírito”, sobre o qual tem havido
considerável debate: teria ele a ver com a
capacidade de discernir o que é verdadeiramente
do Espírito de Deus e o que vem de outros espíritos
(e.g., Grudem) ou com o fenômeno observado
em 1 Coríntios 14,29: “... tomem a palavra
e os outros julguem (discirnam corretamente)”,
onde aparece o verbo cognato desse substantivo
(e.g., Dunn, Fee)? Com toda a probabilidade,
devido ao uso de linguagem paulina em 1 Coríntios
14, o verbo refere-se aos dois, mas em
especial ao fenômeno de “discernir, diferenciar
ou apropriadamente julgar” profecias em 1 Coríntios
14,29. Há duas razões para assumir essa
posição: 1) 1 Tessalonicenses 5,20-21 e 1 Coríntios
14,29, as duas passagens em que Paulo menciona
a atuação da profecia na Igreja, exigem
um “teste” ou “discernimento” de palavras proféticas;
portanto, considerando ser o substantivo
DONS DO ESPÍRITO
DONS DO ESPÍRITO
usado nesta passagem o cognato do verbo em
1 Corintios 14,29, parece provável que a mesma
coisa acontece aqui, pois segue-se imediatamente
“profecia”. 2) Esses dois são seguidos
imediatamente por “línguas” e “interpretação”,
o mesmo padrão encontrado novamente
nas instruções a respeito da ordem em
1 Corintios 14,26-29.
2.1.2.1 Corintios 12,27-30. Depois de aplicar
duas vezes sua analogia do corpo, com ênfase
na necessidade de diversidade (ICor 12,1526),
Paulo conclui esta parte do argumento com
mais uma lista de dons e ministérios (ver Ministério).
A ênfase continua a mesma: a necessidade
de diversidade. A lista em si tem diversos
aspectos interessantes: 1) Paulo começa
com uma lista de pessoas (apóstolos, profetas,
encarregados do ensino), que ele classifica
na ordem de primeiro, segundo, terceiro.
2) Com o quarto e o quinto item (“dom dos
milagres” e dom “da cura”), ele volta aos charismata,
tirando dois da lista de 1 Corintios
12,8-10. Ambos são introduzidos pelas palavras
“a seguir” e “depois”, como se ele pretendesse
que o esquema de classificação continuasse.
3) O sexto e o sétimo item (“assistência” e “direção”),
ações de serviço, são dignos de nota
de três formas: a) são os dois únicos não mencionados
de novo na retórica de 1 Corintios
12,29-30; b) nem são mencionados outra vez
no NT; c) não parecem ser do mesmo tipo —
isto é, dons sobrenaturais — que os citados antes
e depois (milagres, cura, línguas).
Esta lista representa toda uma série de “ministérios”
na Igreja, provavelmente escolhidos por
essa razão. Não está claro o que devemos entender
dessa mistura. Quando muito, podemos dizer
que os três primeiros enfatizam as pessoas que
têm esses ministérios, enquanto os cinco últimos
enfatizam o ministério em si. Isso provavelmente
indica que os três primeiros itens não devem ser
considerados “funções” ocupadas por determinadas
“pessoas” na Igreja local, porém mais exatamente
referem-se a “ministérios” manifestados
em várias pessoas; do mesmo modo, os “dons”
que se seguem não se manifestam na Igreja separados
das pessoas, mas são, antes de tudo, dons
de graça, concedidos pelo Espírito a diversas
pessoas na Igreja para edificação mútua.
Afirmar que Paulo pretendia que todos fossem
“classificados” conforme seu papel ou sua
importância na Igreja é discutível. Provavelmente
não. Ele certamente pretende que os três primeiros
sejam classificados. É possível defender
a mesma coisa também pelo resto com base
no “a seguir... depois” que introduz os dois dons
seguintes. Mas isso parece improvável, pois 1)
ele abandona a enumeração no sexto item; 2) o
quarto e o quinto item (ICor 12,28-30) estão
em ordem inversa em relação a sua primeira listagem
(ICor 12,9-10) e 3) parece não haver nenhum
significado especial quanto a se os milagres
precedem a cura ou vice-versa, ou se precedem
ou seguem a assistência e a direção. O dom
de línguas é o último, como sempre, porque é
a criança problema — incluído somente após a
necessidade de diversidade ficar bem clara.
E mais difícil responder por que ele classifica
os três primeiros; provavelmente isso se
relaciona com seu entendimento do papel que
esses três ministérios desempenham na Igreja.
Não que um seja mais importante que o outro,
nem que essa seja necessariamente sua ordem
de autoridade*, mas um tem precedência sobre
o outro na fundação e edificação da assembléia
local. A luz de 1 Corintios 14,37 e da
probabilidade de serem os que tomaram a iniciativa
contra Paulo considerados “profetas”,
talvez Paulo subordine essas pessoas ao apóstolo
que lhes dá o “mandamento do Senhor”.
Não surpreende de modo algum que Paulo
relacione primeiro “apóstolos”. A surpresa é que
eles estejam nesta lista e que ele os relacione no
plural. E muito provável que com essa palavra ele
reflita em seu ministério nesta Igreja; o plural é
em deferência a outros que exerceram o mesmo
ministério em outras Igrejas (cf. ICor 9,5; 15,711).
Em todo caso, não há outro indício de que
para Paulo uma Igreja local tivesse alguns de seus
membros chamados “apóstolos”, responsáveis
pelos negócios da Igreja. Além disso, não há nenhuma
passagem em Paulo em que haja uma ligação
direta entre o Espírito e o apostolado. Seu
apostolado foi recebido de Cristo (Rm 1,5) e “pela
vontade de Deus” (ICor 1,1); ele nunca sugere especificamente
que esse ministério seja um “carisma”
do Espírito Santo, como se o Espírito Santo
o dotasse para essa “função” (ver Apóstolo).
DONS DO ESPÍRITO
DONS DO ESPÍRITO
A classificação de “profetas” e “encarregados
do ensino” (que aqui aparece pela primeira
vez em suas cartas) é igualmente difícil. A questão
é se Paulo pensa em grupos específicos de pessoas
conhecidas como “profetas” e “encarregados
do ensino”, vis-à-vis “apóstolos” e outros membros
da comunidade, ou se esses são termos mais
funcionais, que se referem a todos os que exercem
esses dons. A linguagem semelhante em Efésios
2,20 (os apóstolos e os profetas) e em Efésios
4,11 sugere que aqui os termos são prováveis
designações para determinadas pessoas —
embora a ênfase ainda esteja em sua função para
edificar a comunidade. Assim, quando essas
palavras ocorrem de novo em 1 Coríntios 14, elas
o fazem como “profecia” e “ensinamento”, aparentemente
como formas de expressão espontâneas
(ICor 14,6.26), sem preocupação com a
pessoa do profeta ou do encarregado do ensino.
Os outros dois novos itens nessa lista, assistência
e direção, ocorrem só aqui em todo o
NT. Ambos parecem se referir ao que em 1
Coríntios 12,5 Paulo denominou diakoniai
(“ministérios”); é discutível se também são
charismata.
2.1.3. As listas restantes. Em sua maior parte,
as listagens restantes em 1 Coríntios (ICor
13,1-3.8; 14,6.26) nada acrescentam de novo,
exceto duas coisas: 1) Adquirimos mais discernimento
do que Paulo entende por “conhecimento”
quando ele fala, em 1 Coríntios 13,2, em “o
saber de todos os mistérios e de todo o conhecimento”.
Em 1 Coríntios 14,6, “conhecimento”
aparece ao lado de “revelação”, o que sugere ser
o entendimento dos caminhos de Deus inspirado
pelo Espírito. 2) A revelação, que aparece pela
primeira vez em 1 Coríntios 14,6, também está
relacionada em 1 Coríntios 14,26 como uma das
coisas que acontecem na reunião para o culto. O
verbo cognato aparece em 1 Coríntios 14,30,
com referência a profecia. Como em 1 Coríntios
14,24-25 a palavra profética também “revela”
os segredos ocultos do coração do pecador e leva
à conversão, parece provável que essa palavra,
ao menos em parte, indique alguma coisa do
entendimento que Paulo tem de profecia.
2.2. Romanos 12,6-8. Esta passagem está
perto do início da parênese (ver Ensinamento/
Parênese) desta carta. A preocupação é com
uma sensata avaliação de si mesmo e com o
fato de ser necessário reciprocidade e diversidade
na comunidade. Os três aspectos que fazem
esta passagem semelhante a algumas coisas em
1 Coríntios 12-14 são: 1) a analogia do corpo
— como um só, com muitas partes; 2) o fato
de charismata serem concedidos aos membros
(pois está subentendida a edificação do corpo);
e 3) a menção da profecia como o primeiro
dos charismata e a inclusão do ensino como o
terceiro item. Mas depois disso nada é conhecido.
Em contraste com 1 Coríntios, mas de acordo
os problemas da Igreja romana (ver Romanos),
os sete itens não enfatizam milagres nem
expressões vocais, mas formas de serviço (o
próprio “serviço” sendo um dos itens relacionados).
Outro item (paraklèsis, “exortação”) é
evidentemente um dom verbal, mas também
pode ser outra forma de servir. Além disso,
cada item qualifica-se quanto à maneira como
a expressão ou o serviço deve ser exercido (“de
acordo com a fé”, “sem segundas intenções,
com zelo, com alegria” etc.).
O item mais difícil desta lista é o sexto,
proístamenos, que em grego é muito ambíguo
e significa “administrar/governar” ou “cuidar
de/dar ajuda a”. Em 1 Tessalonicenses 5,12,
Paulo usou essa palavra para descrever os que
estavam na liderança; seu aparecimento aqui,
entre dar e exercer a misericórdia, sugere que
para Paulo a palavra tem geralmente o sentido
de “cuidar de”, não de “liderar”, mesmo quando
o objetivo é a liderança.
Em suma, é óbvio que esta lista expande
nossa visão do entendimento que Paulo tem
do plural charismata; mas ajuda muito pouco
a avaliar se Paulo também julgava que todos
eles fossem “dons do Espírito”.
2.3. Efésios 4,11. Esta lista é singular no
corpus paulino. São mencionados três ministérios
de 1 Coríntios 12,28 (apóstolos, profetas,
docentes); a eles se juntam “evangelistas” e
“pastores”; estes últimos provavelmente devem
ser entendidos em relacionamento bastante próximo
com “docente”. Embora esta lista ocorra
novamente em um contexto de Espírito e corpo
(Ef 4,4), esses “dons” não são citados como charismata,
nem existe a sugestão de serem “dons
do Espírito”. De fato, Cristo os deu à Igreja, e
DONS DO ESPÍRITO
DONS DO ESPÍRITO
eles não são citados como “dons” em si. São,
antes, pessoas que atuam dessa maneira dentro
da Igreja, com o único propósito de “pôr os
santos em condições”, evidentemente para que
estes últimos cumpram “o ministério para edificar
o corpo”.
A questão urgente nesta lista é se essas pessoas
devem ser consideradas em termos de sua
função ou encarregados de uma missão (ver
Igreja). De acordo com as listas anteriores,
quando ministérios desses tipos são mencionados,
a ênfase ainda parece estar na função. Em
todo caso, com esta lista ultrapassamos um pouco
o entendimento paulino de charismata como
“manifestações do Espírito” ou “formas de serviço”.
E duvidoso se Paulo chegou a considerar
“missão” na Igreja um “dom espiritual”, seja
em termos de charisma ou como dotação especial
do Espírito. Essa parece ser a interpretação
destes textos em uma época mais tardia.
3. Charismata
Apesar das dificuldades envolvidas, os vários
itens destes textos podem ser convenientemente
agrupados sob três designações principais: manifestações
do Espírito na comunidade de culto;
atos de serviço; ministérios específicos. Só devemos
observar que, entendamos ou não o termo
“dons do Espírito” em seu sentido mais
estrito (aplicável apenas a manifestações do Espírito),
a meta de todos os charismata, em todas
as categorias, é a “edificação” da comunidade
em si e dos membros da comunidade. Além disso,
nos dois primeiros sentidos, Paulo faz uma
indicação considerável da universalidade desses
“dons” na comunidade cheia do Espírito.
3.1. Os dons como manifestações do Espírito.
Este é único agrupamento incontestável
nas cartas de Paulo no qual há uma ligação
específica entre o Espírito e os charismata. Parecem
ser principalmente manifestações sobrenaturais
do Espírito na comunidade no culto.
Podem ser ainda agrupados em “milagres”
como tais e “intervenções verbais”.
3.1.1. Milagres. Incluídos aqui estão três
itens de 1 Corintios 12,9-10, “fé” (= o dom
sobrenatural da fé que “move montanhas”; cf.
ICor 13,2), “carismas de cura” (do corpo físico;
também ICor 12,28.30) e “operar milagres”
(= todos os outros desses fenômenos não incluídos
na cura). O uso do plural para os dois
últimos provavelmente significa que esses “dons”
não são permanentes, mas cada ocorrência é
um “dom” por seus próprios méritos. 2 Coríntios
12,12 e Romanos 15,18-19 comprovam
que esses fenômenos faziam parte do ministério
regular do apóstolo. Gálatas 3,5 comprova
que eles eram também a expectativa normal
das Igrejas paulinas.
3.1.2. Expressão inspirada. Incluídos aqui
estão “a mensagem de sabedoria”, “a mensagem
de conhecimento”, “profecia”, “o discernimento
de E/espíritos”, “línguas” e “a interpretação de
línguas”, de 1 Corintios 12,8-10; “ensinamento”
e “revelação”, de 1 Corintios 14,15 e 26 (cf. Ef
5,19; ver Hinos). As tentativas de diferenciar
alguns desses itens uns dos outros são geralmente
infrutíferas, como é qualquer distinção entre
sua expressão “carismática” ou “não-carismática”
(e.g., ensinar ou cantar).
A “mensagem de sabedoria” e “conhecimento”,
por exemplo, é linguagem criada pela
situação em Corinto. Para Paulo, a “mensagem
de sabedoria” é o anúncio da cruz* (ver ICor
1,18-2,16; a terminologia não ocorre em nenhuma
outra passagem). “Conhecimento”, por sua
vez, está estreitamente relacionado com “mistérios”*
em 1 Corintios 13,2 e alhures aproxima-
se do conceito de “revelação” em 1 Coríntios
14,6 e, especialmente, em 1 Corintios 14,25.
26.30. Devem ser entendidos como dons distintamente
diferentes? Ou, como é mais provável,
sugerem ênfases diferentes para a expressão
do dom profético, já que esse também parece
vacilar entre “revelar mistérios” e palavras mais
diretas de edificação, conforto e exortação ou
encorajamento? Em todo caso, o uso de línguas
não interpretadas na assembléia foi o que provocou
todo o argumento, e Paulo usa a profecia
como representante de todas as outras expressões
inspiradas inteligíveis que devem ser preferidas
a línguas naquele ambiente. Estes dois
exigem mais comentários.
3.1.2.1. Glossolalia. O termo paulino real é
“diferentes tipos de língua*”. Em 1 Corintios
13-14, é dito o suficiente para nos dar uma boa
idéia de como Paulo o entendeu. 1) É expressão
inspirada pelo Espírito; isso é esclarecido por
DONS DO ESPÍRITO
DONS DO ESPÍRITO
ICor 12,7.11 e 14,2. 2) Os regulamentos para
seu uso comunitário em 1 Coríntios 14,27-28
esclarecem que o que fala não está em “êxtase”
ou “fora de controle”. Bem o contrário; os que
falam precisam falar um de cada vez e precisam
permanecer em silêncio se não houver ninguém
para interpretar. 3) É essencialmente ininteligível
para o que fala (ICor 14,14) e para os simples
ouvintes (ICor 14,16), e é por isso que precisa
ser interpretada na assembléia. 4) É fala dirigida
basicamente a Deus (ICor 14,2.14-15.28); presumimos,
portanto, que o que é interpretado não
é a fala dirigida aos outros, mas os “mistérios”
falados a Deus. 5) Como dom para a oração*
particular, Paulo a tinha em alto conceito (ICor
14,2.4.5.15.17-18).
É discutível se Paulo também entendia ser
esse dom uma linguagem terrena real, mas os
indícios gerais sugerem que não. Ele com certeza
não imagina a probabilidade de haver alguém
presente que entenda sem interpretação;
e a analogia da linguagem terrena em 1 Coríntios
14,10-12 subentende que não é uma linguagem
terrena (geralmente uma coisa não é idêntica
àquela da qual ela é análoga).
3.1.2.2. Profecia. De todos os charismata do
Espírito, este é o mencionado com mais freqüência
nas cartaspaulinas (lTs 5,20; ICor 11,4-5;12—
14; Rm 12,6; Ef 2,20; 3,5; 4,11; lTm 1,18; 4,14;
e provavelmente “revelação do Espírito” em 2Ts
2,2 [CNBB]), o que subentende a mais ampla
série de ocorrências nas Igrejas paulinas (ver Profecia).
Embora também fosse um fenômeno
difundido no mundo grego (ver Aune), o entendimento
paulino de profecia era totalmente condicionado
por sua história no judaísmo. O profeta
era alguém que falava ao povo de Deus sob a inspiração
do Espírito. Em Paulo, essa “fala” consistia
em mensagens inteligíveis espontâneas, transmitidas
oralmente na assembléia reunida, com o
propósito de edificação ou encorajamento das
pessoas, ou em uma “revelação” de algum tipo
(G1 2,2) que, às vezes, expunha os corações dos
incrédulos e os levava ao arrependimento. Os que
profetizavam eram considerados “no controle”
(ver ICor 14,29-33). Embora algumas pessoas
sejam profetas, a conclusão de 1 Coríntios 14,2425.30-
31 é que o dom está disponível — pelo
menos potencialmente — para todos.
Mas também está claro que a profecia não
tem autoridade independente. As provas combinadas
de 1 Tessalonicenses 5,21-22 e 1 Coríntios
12,10 e 14,29 são que toda essa atividade
profética precisa ser “discernida” pela comunidade
carismática. A conclusão nos dois textos
é que precisamos crer que somos realmente
“inspirados” pelo Espírito, mas na realidade o
que é dito pode não se originar, em absoluto,
do Espírito. Portanto, a comunidade precisa testar
todas as coisas, apegando-se às boas e dispensando
toda expressão má.
3.1.3. Sua extensão nas Igrejas paulinas. O
próprio fato de Paulo relacionar todos esses itens
de modo tão prosaico, principalmente em 1 Coríntios
12,7-11, indica que o culto da Igreja primitiva
era muito mais “carismático” do que é
verdade na maior parte da história subseqüente
da Igreja. Na verdade, há quem procure fazer
dessa falta uma virtude, argumentando que os
fenômenos mais extraordinários eram relativamente
limitados na Igreja primitiva — pertencem
aos fiéis mais “imaturos” como os coríntios
— e que já não são mais necessários depois
que foi estabelecido o cânon do NT. Mas isso
deixa de lado as provas em Paulo e também seu
objetivo em 1 Coríntios 13,8-13 (verFee, 1987).
E possível também argumentar que as outras
Igrejas paulinas não celebravam a Ceia do Senhor*,
pois ela só é mencionada em 1 Coríntios.
De fato, existem provas consideráveis de
que uma visível dimensão “carismática” da vida
no Espírito era a experiência normal das Igrejas
paulinas. Que Paulo falou dela de maneira direta
apenas duas vezes (lTs 5,19-22; ICor 12-14) é
o “acidente” da história — só aqui havia problemas
de abuso. Na verdade, o problema emTessalônica
é bastante significativo pois, aparentemente,
havia uma tendência a menosprezar o
Espírito profético em suas reuniões, mas Paulo
não aprovava isso.
Ainda mais significativo é o jeito prosaico
e improvisado como esses fenômenos são mencionados
alhures. Por exemplo, em 2 Tessalonicenses
2,2, Paulo sabe que alguém falsamente
os informou, sob o disfarce de sua autoridade, a
respeito do “dia do Senhor” (ver Escatologia).
O que ele não sabe é a fonte dessa informação
falsa; uma possibilidade que automaticamente
---------- — -----f c l E l
DONS DO ESPIRITO |
DONS DO ESPÍRITO I
nos vem à mente é “por meio do Espírito” (mais
provavelmente uma afirmação profética “não-discemida”).
Do mesmo modo, em 1 Corintios 11,216,
na questão de cobrir a cabeça (ver Cabeça),
Paulo se refere ao culto como “rezar e profetizar”,
as duas maneiras primordiais de se dirigir a Deus
e às pessoas na assembléia. Em Gálatas 3,4-5, o
argumento está no passado dos gálatas (“experiências
tão notáveis”, BAGD) e a experiência
constante do Espírito, inclusive “milagres”. E, no
caso do ministério de Timóteo (lTml,18;4,14),
seu dom relaciona-se com intervenções proféticas
na comunidade, intervenções tão significativas
para Timóteo que ele é exortado a prosseguir
o bom combate à luz delas (lTm 1,18).
Em nenhum desses casos Paulo defende alguma
coisa; antes, a expressão “carismática” visível
de sua vida comum no Espírito é a pressuposição
a partir da qual ele discute outra coisa.
3.2. Charismata como atos de serviço. Esta
categoria origina-se do uso de charismata em
Romanos 12,6-8, onde ele inclui “servir”, “dar”,
“presidir” (no sentido de liderança) e “exercer a
misericórdia”. A esses, podemos acrescentar
“assistência” e “direção” de 1 Corintios 12,28
(a primeira palavra subentende que alguns servem
às necessidades físicas e espirituais dos outros
na comunidade, enquanto a segunda referese
provavelmente a dar sábios conselhos à comunidade
— como um todo, não apenas a outros
indivíduos). Esses são os menos visivelmente
“carismáticos” dos “dons” e os menos óbvios
como expressões de culto em conjunto. De fato,
parecem, antes, fazer parte do interesse constante
de Paulo em relacionamentos na Igreja. É bastante
discutível se o próprio Paulo considerava
esses ministérios dons do Espírito. Em todo caso,
eles se adaptam melhor em discussões do
entendimento paulino da ética* cristã e da vida
comunitária (ver Igreja). Como tal, dão expressão
visível ao fruto do Espírito (ver Fruto do
Espírito), mas Paulo não os designa como dons
espirituais (exceto quando atribuímos ao termo
charismata um sentido que não lhe é inerente).
3.3. Os dons e o ministério. Eis uma das
áreas mais controvertidas desta análise. Incluídos
aqui estão itens como “apóstolos”, “profetas”
e “encarregados do ensino”, de 1 Corintios
12,28 e Efésios 4,11, “evangelistas” e “pastores”
desta última passagem e o carisma de ministério
de Timóteo em 1 Timóteo 4,14. As dificuldades
estão em três áreas: a ambigüidade de
linguagem observada acima; se esses termos devem
ser primordialmente entendidos em termos
de função ou missão; o próprio Paulo designa
alguns deles como charismata, mas não todos
eles (ver Ministério).
A chave para essa ambigüidade encontrase
provavelmente em uma distinção apropriada
entre função e missão. Nas cartas paulinas, quase
sempre esses termos parecem ser principalmente
funcionais, em vez de indicarem missão.
Isto é, Paulo está mais freqüentemente preocupado
com a função da profecia na comunidade
que com uma posição conhecida como “profeta”.
De qualquer modo, esta última se origina da
primeira, não o contrário; e é aqui que o papel
da terminologia do Espírito e dos charismata
se encaixa. Paulo entendia claramente seu ministério
e o dos outros como dados pelo Espírito e
fortalecidos pelo Espírito. Quando operavam
como ministérios do Espírito, Paulo provavelmente
considerava esses ministérios charismata.
Mesmo nas que muitos biblistas classificam
como cartas pastorais deuteropaulinas (ver Cartas
Pastorais), o carisma de Timóteo claramente
não é missão. O carisma está “dentro dele” para
o bem de seu ministério (assim Schatzmann,
Fee; contra Dunn et al.).
Em suma, a freqüente distinção entre “carismático”
e “oficial” é provavelmente falsa (assim
Kãsemann, Fung), em parte porque todo
ministério era “carismático” no sentido de ser
dado por Cristo e fortalecido pelo Espírito (Kãsemann)
e, em parte, porque as distinções de
linguagem são de época posterior e não têm nada
a ver com Paulo e suas preocupações. Isso não
nega “a missão”; apenas sugere que essa discussão
parece bastante estranha ao uso paulino de
charismata quando associados ao Espírito.
Ver também C o r po d e C r is t o ; F ruto d o E spír
it o ; E spír ito S a n t o ; C o n h e c im e n t o , d o m d o
co n h ec im en t o ; M in istér io ; P ro fecia , pro fetiza r;
E spir it u a l id a d e ; L ín g u a s; C u lto , a d o r a ç ã o .
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